Sobre as Origens da Capacidade de Sublimar

Maria Lucia Pilla

Caixa de texto:                                                                                    O trabalho é o amor feito visível”
                                                                                                              G. Khalil Gibran

Ao longo de sua obra, Freud limitou-se a descrever o processo de sublimação. Tomo aqui um resumo do exposto em “O Ego e o Id”: O processo de sublimação tem início com a renúncia instintiva – que é imposta pelas exigências do mundo externo e do Superego, ambas operantes em função da situação de dependência infantil (1); a imposição desta renúncia faz com que a libido, dirigida até então aos objetos primários, seja retirada deles e retorne ao Ego, que  através do processo de identificação com estes objetos, oferece-se agora como único objeto de amor ao Id; mas neste caminho de retorno, parte da libido que volta ao Ego é dessexualizada, neutralizada, sublimada; esta libido neutralizada, pertencente agora ao Ego, pode a partir de então dirigir-se a outros fins que não os sexuais.

Quanto ao mais, àquilo que estaria para aquém ou para além da descrição deste processo,  na maioria de suas referências à sublimação Freud relacionou-a às características de raridade e mistério – e é justamente isto que torna este conceito tão intrigante para nós. Entre os possíveis destinos da libido barrada em sua satisfação primária, a sublimação é o mais raro e o mistério reside nos fatores que a determinam – que possibilitam que uma parte da libido seja neutralizada e assim libertada dos fins estritamente sexuais. 

Cito aqui algumas das palavras com as quais Freud remeteu-nos a este mistério. Em “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (2), diz que a sublimação depende de uma predisposição especial. Em “O Mal Estar Na Civilização” (3) diz: “A sublimação possui uma qualidade especial que um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos; seu ponto fraco reside em não ser geralmente aplicável, uma vez que só é acessível a poucas pessoas – pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que estão longe de serem comuns”.

Predisposições, qualidades, dotes especiais  - são todos termos vagos, que em sua maioria remetem à hipótese de uma possível hereditariedade, indicando que Freud tateava no escuro quanto às origens da capacidade de sublimar. 

Minha proposta é então pesquisar esta origem na obra de Winnicott – tomando como ponto de partida a situação de dependência infantil, também reconhecida por Freud, conforme aludi no início. Segundo Winnicott (4): “Se a palavra dependência significa verdadeiramente dependência, não se pode escrever a história de um bebê enquanto indivíduo referindo-se unicamente a ele – é necessário levar igualmente em conta a contribuição do ambiente”. Portanto, para Winnicott, o ser humano, desde suas origens, não existe como um ser isolado, mas apenas como um conjunto indivíduo – meio ambiente.

Não encontramos na obra de Winnicott um estudo específico sobre o conceito de sublimação – mas sim uma extensa pesquisa sobre as origens da criatividade, na qual a sublimação e sua vinculação com os destinos das pulsões só é referida de forma secundária.  E no entanto, parece-me que Freud e Winnicott, ao falarem de sublimação e criatividade, estão ambos referindo-se às faces opostas de uma mesma moeda: Freud, falando de sublimação, refere-se ao destino das pulsões – Winnicott, falando de criatividade, refere-se ao que é fornecido pelo ambiente; mas para que as pulsões tenham este destino tão específico e raro, é necessário que o ambiente tenha fornecido também algo de específico. Voltando a citar Winnicott (5): “Qualquer teoria que se refira ao indivíduo enquanto ser isolado não conduzirá ao problema central da fonte da criatividade – pois este está diretamente ligado à quantidade e qualidade da contribuição oferecida pelo ambiente nas primeiras fases de experiência da vida”.

Está implícito no acima exposto que estou considerando sublimação e criatividade como uma só e mesma coisa – vista sob diferentes aspectos. No entanto, quero deixar claro que com isto não estou identificando sublimação com criação artística (enfoque para o qual tendem muitos escritos psicanalíticos) – mas sim com a criatividade em si, onde quer que ela se dê – ali onde o amor (libido) se faz vida criativa.
Tomemos, como ponto de partida desta pesquisa , o termo especificidade, utilizado tanto por Freud quanto por Winnicott. Em Freud, a especificidade deste destino das pulsões – associa-se ao termo raridade; em Winnicott, a especificidade da contribuição ambiental – associa-se ao termo precariedade.

É Winnicott quem nos fornece a bússola que nos orientará para o ponto de convergência das duas faces desta moeda.  Para ele, no indivíduo neurologicamente sadio (com uma capacidade cerebral e uma inteligência razoáveis) existe a potencialidade para a capacidade de criar; mas a atualização desta capacidade dependerá essencialmente da interação com um ambiente facilitador (6). E esta interação é muito precária – de uma precariedade mágica – uma vez que cada conquista na atualização dependerá do fornecimento de uma experiência específica e adequada do ambiente, e cada falha do ambiente no fornecimento destas experiências irá gerar uma falha correspondente na atualização da capacidade de criar. 

Evidencia-se então que aquilo a que Winnicott refere-se como um ambiente facilitador, não é algo simples mas bastante complexo e precário.  Um ambiente facilitador é aquele que propicia algumas experiências básicas por um período de tempo suficientemente longo – experiências estas que poderíamos situar, em termos bem amplos, em duas áreas – a da ilusão e a da desilusão.

A Área da Ilusão


Nesta área a mãe-ambiente fornece ao bebê a experiência de onipotência: o bebê cria o objeto – mas, paradoxalmente, para que ele o faça é necessário que o objeto esteja lá para ser criado. A repetição prolongada destas experiências estabelecerá a relação com  o objeto subjetivo, na qual este é controlado onipotentemente, não havendo ainda discriminação eu – não eu. É o momento da ilusão – que funda a experiência de ser: a partir de uma experiência contínua de  existência – sem interrupções insuportáveis – estabelece-se o ser do verdadeiro self. Mas isto só pode ocorrer se existe um ambiente que propicie continuidade  - o que equivale a dizer, se existe uma mãe ambiente confiável, quase inteiramente voltada para as necessidades do bebê, gerando nele o sentimento de confiança na fiabilidade da mãe. Se tal experiência é propiciada pelo ambiente, o Ego começa a integrar-se e forma-se então um padrão instintivo: as pulsões passam a ser vividas, assumidas e relativamente dominadas pelo Ego. Antes  da formação deste padrão, as pulsões são tão disruptivas quanto qualquer trauma externo, gerando experiências que poderiam ser descritas como angústia impensável ou terror sem nome (7).

A Área da Desilusão

Nesta área, o ambiente facilitador continua propiciando aquilo que já começara a estabelecer-se anteriormente – a confiança na fiabilidade  da mãe – fator indispensável para que as experiências de desilusão possam ser suportadas e aproveitadas. Portanto, é só depois do estabelecimento do ser do verdadeiro self (na área da ilusão), que a desilusão poderá ser vivida de forma a criar um espaço potencial entre a mãe e o bebê. Aqui, o ambiente facilitador começará a introduzir  as experiências de desilusão dosadamente, na medida em que são suportáveis, atendendo a nova necessidade de separação do conjunto mãe – bebê; neste novo passo, a confiança na fiabilidade da mãe começa a implicar na percepção de um ambiente que não só atende às necessidades de dependência, mas que também fornece a oportunidade de ir da dependência à autonomia.

Ocorrerá então uma outra experiência fundamental – na verdade uma das mais dolorosas pelas quais tem que passar o ser humano, uma vez que implica na perda da onipotência.  É aquilo que Winnicott denomina uso do objeto: o objeto é destruído na fantasia inconsciente – mas sobrevive enquanto objeto real (o que significa que o objeto real não retalia, mantendo-se o mesmo). Esta experiência – se o objeto sobrevive – leva o bebê a colocá-lo fora da área de controle onipotente (onde está o objeto subjetivo), deixando uma falta, um espaço, onde surgirá o primeiro símbolo: o objeto transicional, símbolo da união mãe-bebê, que ocupará o espaço potencial no momento em que se dá a separação eu – não eu. Inaugura-se aqui a capacidade de simbolizar -  indispensável ao processo de sublimação.

Penso que deparamos aqui com um importante ponto de convergência entre o pensamento de Freud e de Winnicott. Voltemos a Freud e a sua enigmática descrição do processo de sublimação, quando ele diz que, no caminho de retorno  para o Ego, parte da libido é dessexualizada, neutralizada, sublimada, podendo então dirigir-se a outros fins que não os sexuais. Utilizando as hipóteses de Winnicott sobre as experiências que se dão na área da desilusão, podemos traduzir a descrição puramente econômica de Freud para uma outra linguagem: a libido neutralizada corresponderia então a uma capacidade do indivíduo de investir sua libido em objetos simbólicos, ao invés de investi-la apenas em objetos subjetivos ou reais.

No entanto, é evidente que a capacidade de simbolizar não esgota o conceito de sublimação. Lembremos que, segundo Freud, a especialidade da sublimação consiste em ser ela o único destino da pulsão que escapa ao recalque. Ora, na maioria dos produtos de retorno do recalcado – onde o recalque mantem-se – o processo de simbolização está presente: os sonhos e os sintomas são formações de compromisso que se utilizam de símbolos; mas neles, o que retorna do recalcado – tal e qual – só modifica-se deslocando-se para símbolos por imposições da censura. Enquanto que a sublimação não gera formações de compromisso; ela também utiliza símbolos, mas de uma forma diferente - utiliza-os para criar em um outro lugar, no espaço potencial, neste espaço intermediário entre o indivíduo e o ambiente, entre o território onde só há eu (objetos subjetivos na área  de controle onipotente) e o território onde só há objetos e fenômenos percebidos objetivamente (objetos e fenômenos que escapam ao controle onipotente). Portanto a libido neutralizada corresponderia não só à capacidade de investir a libido em objetos simbólicos, mas também em uma capacidade de utilizar tais símbolos de maneira criativa – de utilizá-los para criar neles e com eles.

Referindo-se ao objeto transicional, Winnicott diz que, do ponto de vista do observador, este objeto foi encontrado no mundo externo; mas do ponto de vista do bebê, ele foi criado, o que significa que o bebê começa a utilizar os objetos existentes para ser criativo neles e com eles; portanto, o objeto transicional é não apenas o primeiro símbolo, mas também a primeira criação não-eu (8).

Mais uma vez aqui, esta capacidade de utilizar o processo de simbolização de forma criativa dependerá do ambiente facilitador – ou seja, dependerá de um ambiente que favoreça uma predominância de experiências de aquisição de autonomia do verdadeiro self, onde também as pulsões agressivas poderão ser integradas, assumidas e utilizadas; em outras palavras, dependerá de um ambiente que não propicie uma predominância de experiências de submissão.

É portanto aqui, na área da desilusão e da criação do espaço potencial, que finalmente se estabelecerá ou não, ou que se estabelecerá em maior ou menor grau, a atualização da capacidade de criar – que se exercerá primeiro no brincar, depois no espaço cultural, onde insere-se a sublimação. As experiências que se dão nesta área são altamente variáveis e precárias – na medida em que dependem do interjogo contínuo entre o que ocorre no espaço psíquico e as respostas do ambiente – dependendo portanto do conjunto de experiências de cada indivíduo.

A importância fundamental do ambiente facilitador na atualização da capacidade de criar talvez fique mais clara se nos referirmos ao seu oposto, ao ambiente que não facilita mas dificulta ou até impede a realização de tal capacidade.

Se há falha ambiental na área da ilusão, seja por falta ou por excesso (porque em ambos os casos as necessidades do bebê não estarão sendo atendidas), então o ambiente, ao invés de responder às necessidades do bebê, invadirá seu self em formação, provocando uma reação à invasão através do split entre o verdadeiro e o falso self. Neste caso não se dá a experiência de ser do verdadeiro self e este – o único que poderia ser capaz  de criar – permanecerá retraído e oculto, enquanto que só o falso self  entrará em contato com o ambiente, direcionando-se exclusivamente  à tentativa de adaptar-se a ele. Em tais circunstâncias a capacidade de criar permanecerá oculta em uma vida secreta – enquanto que no contato com o ambiente teremos indivíduos presos à criatividade do outro, que produzirão no máximo um simulacro da criatividade, um macaquear vazio, desprovido de vida, do verdadeiro ser e experimentar; teríamos aqui apenas pseudo-sublimações. Naturalmente, quando há falha nesta área, as experiências na área da desilusão ficarão irremediavelmente prejudicadas, uma vez que não poderão ser aproveitadas pelo verdadeiro self.

Quando a falha ambiental só se dá na área da desilusão, os prejuízos na atualização da capacidade de criar dar-se-ão em graus variados. As falhas ambientais nesta área podem gerar falhas na capacidade de simbolizar – ou podem prejudicar o desenvolvimento de um self autônomo – ou ainda podem impedir a utilização das pulsões agressivas. Por exemplo, se o objeto não sobrevive à experiência de destruição – retaliando em vez de sobreviver e propiciando assim uma predominância de experiências de submissão – o self do bebê reagirá também aqui com o split, desta vez das pulsões agressivas, que não ficarão mais disponíveis para seu uso; naturalmente, tais circunstâncias não favorecerão o desenvolvimento de um self autônomo e a colocação do objeto fora da área do controle onipotente; em função disto, a criação de um espaço potencial será também dificultada, prejudicando o processo de simbolização. Enfim, como disse antes, as variações nesta área são inúmeras, facilitando ou prejudicando, em diferentes graus, a capacidade de investir em objetos simbólicos de maneira criativa.

Conclusão

Concluindo, creio que a contribuição de Winnicott para o desvendamento do “mistério” ao qual Freud se referia – quanto aos fatores determinantes da capacidade de sublimar – consiste em sua demonstração de que são as experiências fornecidas pelo ambiente nos primeiros estágios da vida, quando a dependência é um fato incontestável, que propiciarão ou não a atualização desta capacidade, que existiria potencialmente em todo indivíduo neurologicamente sadio. Quando um ambiente facilitador proporciona experiências que levam ao estabelecimento do ser do verdadeiro self, ao estabelecimento da capacidade de simbolizar e ainda ao desenvolvimento de um verdadeiro self relativamente autônomo – então o indivíduo será capaz de investir  parte de suas pulsões em objetos simbólicos e de fazê-lo de uma forma criativa, que escape à submissão inevitavelmente  imposta pelo mundo externo e ao recalque que espelha tal imposição no mundo interno. Estas criações preencherão o espaço intermediário entre o Self e o Ambiente e se realizarão inicialmente no brincar, depois no sublimar – que não é mais que uma extensão do primeiro.

Ao finalizar, ocorrem-me as palavras de um artista (9), às quais sou grata, por terem sido elas que me instigaram a criar neste espaço que me foi oferecido. Suas palavras eram mais ou menos assim:

O mundo é um mistério. Diante do mistério nos maravilhamos e somos instigados a desvendá-lo. A nossa interpretação pessoal de uma pequena parte deste mistério, libertada dos condicionamentos sociais, desvelando-o e descobrindo o novo – consiste no ato de criação.

Diante destas palavras, pergunto-me agora, como o fiz na ocasião em que as ouvi: 

O que dá ao ser humano esta possibilidade de maravilhar-se diante do mistério? 

Todos os seres humanos colocam-se assim diante dele?	

Certamente não! Creio que só aquilo que Winnicott descreve como um ambiente facilitador, no início da vida, pode propiciar, no decorrer dela, esta atitude de maravilhamento, curiosidade e instigação a desvendar os mistérios interiores e exteriores. Um ambiente que facilita – a – dor, a dor que inevitavelmente temos que experimentar, mas que alguém pode facilitar-nos a tarefa de viver e criar, apesar dela e com ela.

Sem isto, sem alguém que nos ajude a enfrentar a dor inevitável, o mistério, ao invés de maravilhamento, provocará reações – de medo, pânico, terror, angústia – impensável, sem nome – reações que só poderão levar ao recolhimento e enclausuramento da capacidade de criar, a um enclausuramento de tal ordem que o mistério nem será mais reconhecido.

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(1) Sublinho esta afirmação porque é dela que pretendo partir.
(2) Obras Completas de Freud, Ed. Standard Brasileira – Vol. XI, pág. 74.
(3) idem – Vol. XXI, pág. 98
(4) Winnicott, D.W., La créativité et sés origines em Jeu e Realité, Ed. Gallimard, pág 99.
(5) Idem, pág. 100
(6) Utilizo este termo com substituto daquilo que Winnicott denomina de ambiente suficientemente bom.
(7) Cujo equivalente em Freud seria a angústia automática (repetição da angústia primária) na qual o Ego é invadido por uma perturbação econômica com a qual não pode lidar – conforme o exposto em Inibição, Sintoma e Angústia – Edição Standard Brasileira. 
(8) O objeto transicional é uma criação onde já existe a discriminação eu (dentro da área de controle onipotente) – não eu (fora da área de controle onipotente); enquanto que o objeto subjetivo é uma criação onde tal discriminação ainda não está presente.
(9) OLIVEIRA, Domingos de – em Encontro Científico sobre Sublimação, na S.

 

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