Transformações e transgressões no Processo Psicanalítico (1)

Maria Lucia Pilla

Caixa de texto: D.Winnicott
Caixa de texto: I - Introdução

Recentemente, foi colocado no site da  Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro artigo que trazia as denúncias de um paciente sobre as transgressões de Masud Khan - denúncias estas que acabaram respingando também em seu analista, D. Winnicott. Os responsáveis pela colocação do referido artigo no  site disseram-me que sua intenção era motivar debates sobre as transgressões que fazemos todos em nossa clínica, mas sobre as quais não falamos. Foi este evento que me motivou a escrever o presente artigo.

Penso que para falar deste tema, devemos começar por distinguir dois tipos bem diversos de transgressões: a transgressão  ética - que a meu ver consiste basicamente em dar o analista prioridade a seu próprio desejo, invadindo o paciente com o mesmo - e que configuraria a verdadeira transgressão (caso das denúncias do paciente de Masud Khan, se elas forem verdadeiras); e a transgressão que se confronta com preconceitos, teorias e posições rígidas e petrificadas - que é a que traz transformações e progressos para a psicanálise. 

Pretendo escrever sobre esta última e sua ocorrência dentro do processo analítico. Para tanto farei um estudo de casos que têm como ponto comum  um mesmo núcleo patológico - a existência de uma depressão grave relacionada ao luto não elaborado de uma perda sofrida precocemente. Falo de um mesmo núcleo patológico, porque em apenas  um dos casos a depressão  era explícita, estando nos outros encoberta por diferentes  tipos de sintomatologia. São ao todo seis casos; em quatro deles ocorreram transformações evidentes e significativas no próprio núcleo patológico; em dois, no entanto, ocorreram mudanças apenas superficiais,  permanecendo o núcleo intocado. Estou me referindo aqui ao mesmo fenômeno que Winnicott descreve em O Medo do Breakdwn. (2)

“.... nos casos que estou examinando, a analise começa bem e progride com ímpeto; o que está acontecendo, contudo, é que analista e paciente estão em conluio em uma análise psiconeurótica, quando, na realidade, a enfermidade é psicótica. Repetidas vezes o par analítico está satisfeito com o que fizeram juntos.....  Entretanto, cada um dos chamados progressos termina em destruição. O paciente o rompe e pergunta - e daí? Na realidade o avanço não foi um avanço, mas sim um novo exemplo de o analista jogar o jogo que o paciente faz de postergar a questão principal..... Temos que presumir que tanto paciente como analista realmente desejam terminar a análise, mas infelizmente, não há fim, a menos que o fundo do poço tenha sido alcançado, a menos que a coisa temida tenha sido experienciada.”

 Por questões de espaço, dos seis casos apresentarei apenas três. Minha idéia é  tentar averiguar se existe ou não algum ponto comum nos  casos em que ocorreram mudanças significativas e naqueles em que não ocorreram e, em caso afirmativo, se este ponto estaria ou não relacionado a possíveis transgressões clínicas.

II – Transformações na Clínica

Para tanto precisarei expor minhas próprias transgressões - tarefa não muito fácil de ser realizada em nosso meio.  Desafiou-me, no entanto, a fazê-lo, o próprio tema da Jornada - pois não veria razão para tal tema, se ele não incluísse a possibilidade e o convite mesmo de expormos as transformações e criações que realizamos em nossa clínica. 

Começarei, portanto, por aí. Mas antes exporei a fundamentação teórica destas transformações, tanto do ponto de vista psicanalítico, quanto de um ponto de vista científico mais abrangente.

Do ponto de vista psicanalítico,  minha postura clínica sustenta-se em D. Winnicott (um dos “atacados” no artigo citado) - especialmente em sua teorização sobre o ambiente suficientemente bom e sua relação com o setting analítico. Em inúmeros de seus escritos,  Winnicott afirma que, assim como a mãe suficientemente boa é aquela que atende à necessidade do bebê, o analista suficientemente bom seria igualmente aquele capaz de atender à necessidade do paciente. Cito a seguir alguns trechos em que Winnicott define o conceito de mãe ambiente suficientemente boa:

“No estágio que está sendo discutido é necessário não pensar no bebê como uma pessoa que sente fome e cujos impulsos instintivos podem ser satisfeitos ou frustrados, e sim como um ser imaturo que está continuamente a pique de sofrer uma ansiedade inimaginável. Esta ansiedade inimaginável é evitada por esta função vitalmente importante da mãe neste estágio, sua capacidade de se pôr no lugar do bebê e saber o que ele necessita no cuidado geral de seu corpo e, por conseqüência, de sua pessoa”. (3)

 “ A incapacidade materna de se adaptar na fase mais inicial não produz mais que uma aniquilação do self do bebê. O bebê neste estádio não apreende de forma alguma o que é bem feito pela mãe. .....Seus fracassos não são sentidos como fracassos maternos, agindo em vez disso como ameaças à existência pessoal do self.” (4)

  “Há uma grande diferença entre aqueles pacientes que tiveram experiências iniciais satisfatórias que podem ser descobertas na transferência e aqueles cujas experiências iniciais foram tão deficientes ou distorcidas, que o analista tem que ser a primeira pessoa na vida do paciente a fornecer certas coisas que são essenciais no meio ambiente. No tratamento do paciente do segundo tipo, cada detalhe técnico da prática analítica que, no tratamento do primeiro tipo de paciente, é tido como algo natural, adquire uma importância vital”. (5)

Entendido naturalmente aí o termo necessidade no sentido que Winnicott lhe atribui (e que nada tem a ver com desejo), e também que ele está se referindo a casos nos quais o núcleo patológico não consiste em conflitos neuróticos, mas em situações traumáticas precoces e nas defesas e distorções estruturais daí decorrentes. 

“Greenacre fala de prazeres rítmicos do tipo acalentador. Encontramos aí um exemplo de uma necessidade que obtém ou não uma resposta, mas seria uma distorção dizer que o bebê que não é embalado reage da mesma forma que reagiria a uma frustração. Certamente, em vez de raiva, o que há é algum tipo de distorção do desenvolvimento em uma fase inicial”....pg. 496... “as necessidades são inicialmente corporais e gradualmente tornam-se necessidades do ego, à medida que, a partir da elaboração imaginativa da experiência física, surge a psicologia.” (6)

Do ponto de vista mais amplo, as transformações que tenho incluído em meu trabalho inserem-se no tema Novos Paradigmas Científicos. Como todos sabemos, a Física Quântica vem postulando novos conceitos e leis que propõem novos paradigmas para o pensamento científico.
A estrutura descontínua dos quantuns e fótons (Marx Plank); a causalidade global (Bell) - que detectando correlações não locais aponta para a não separação entre as coisas; o Princípio da Incerteza (Heisenberg)  - mostrando que na mecânica quântica só é possível prever a probabilidade de obter determinado resultado; a dualidade onda - partícula (De Broglie) - indicando a não separação entre observador e observado, uma vez que o  observador tem um papel fundamental sobre a natureza física do que será observado; o Princípio da Complementaridade (Bohr)  - apontando para uma nova lógica - a dialógica - segundo a qual pares aparentemente contraditórios são na verdade complementares, existindo em outro nível de realidade um 3o. termo que engloba os dois primeiros  e sendo assim possível  manter a dualidade no seio da unidade.

 Também o Pensamento Complexo de E. Morin ( que focaliza as conexões entre os  fenômenos, formando assim novas redes articulares)  e a Transdisciplinaridade ( que focaliza o que está entre, através e para além das disciplinas, com o objetivo de obter uma compreensão mais ampla e abrangente da Realidade e do ser humano)   vêm  apontando para estes novos paradigmas, que têm sido aos poucos incorporados por  várias ciências,  inclusive as humanas. Entre eles destacam-se os paradigmas da não separatividade e da multidimensionalidade. O primeiro propõe a interação e interdependência entre todas as coisas - e desemboca, no que diz respeito ao ser humano, no novo conceito de corpomente introduzido pela neurociência em substituição à antiga oposição cartesiana corpo x mente. O segundo propõe a existência de uma Realidade una em sua essência, manifestando-se de formas múltiplas, em diferentes dimensões - o que implica, no que tange ao ser humano, em considerá-lo sempre como um todo manifesto em várias dimensões - a física, a psíquica, a ambiental, a  social, a cultural e a espiritual. Penso que a psicanálise, como têm feito outras ciências humanas, deve estar aberta a estes novos paradigmas, incluindo-os na medida do possível e transformando-se a partir deles, desde que para tanto não perca sua identidade essencial. As transformações  que venho incluindo em meu trabalho partem deste pressuposto. E como falei de dimensão espiritual - o que geralmente é considerado uma transgressão em psicanálise - é preciso esclarecer qual o sentido que este termo adquire aqui. Dimensão espiritual não se refere a qualquer religião instituída, com suas crenças e dogmas, mas a algo que aponta para o mistério, para aquilo que está para além de nossas possibilidades perceptivas e racionais, não sendo atingível através destes meios; a algo que se relaciona ao vivenciado, ao experimentado, ao intuitivo; a algo que implica em “uma busca que não se sabe onde vai dar”, como disse Carlos Alberto Plastino, em um Encontro Científico na Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro, admitindo que esta dimensão pode ser compatível com a psicanálise.	 

Vamos então às minhas  transformações  (ou transgressões?)
Incluo a dimensão espiritual, quando ela é trazida pelo paciente - ou seja, quando isto ocorre, não interpreto este material como um sintoma, nem o trato como algo que não diz respeito ao trabalho analítico - mas o incluo dentro do processo que está ocorrendo com o paciente. Naturalmente, este tipo de material pode ser um sintoma - mas neste caso não tem nada a ver com o que entendo como dimensão espiritual - é apenas um sintoma, como qualquer outro.
Incluo em meu trabalho os seguintes recursos técnicos extra-analíticos, com a finalidade de facilitar a emergência do inconsciente:

Trabalho Corporal – que implica na inclusão da dimensão física no processo psicanalítico – e que consiste, basicamente, em utilizar a respiração, para focalizar a consciência do paciente em sensações físicas emergentes no decorrer do processo psicanalítico, ajudando-o a observar o que decorre daí. Este tipo de recurso pode levar à emergência de material inconsciente geralmente não acessível através da associação livre. 
Hipnose Moderna – que consiste em utilizar o relaxamento e a respiração para ajudar o paciente a entrar em um estado alterado de consciência (7), com a finalidade de acessar determinado material inconsciente previamente apontado dentro do processo psicanalítico.

É importante deixar claro que a utilização destas técnicas requer uma formação  adequada nas mesmas. No meu caso, vários fatores e circunstâncias me levaram a fazer formação tanto em Terapias Corporais quanto em Hipnose Moderna.

3. Trabalho Interdisciplinar -  em parceria com outros profissionais - psiquiatras, médicos,  profissionais que trabalham com Yoga e Meditação.  Esta parceria, sobretudo com médicos e psiquiatras, implica sempre em trocas, visando à realização de um trabalho conjunto.

Incluo estas transformações  dentro do processo psicanalítico conforme a necessidade que emerge do mesmo. Em 1. esta necessidade é trazida de forma explícita pelo paciente; em 2. e 3. evidencia-se, no decorrer do processo, que os recursos clássicos da psicanálise não estão sendo suficientes, que algo mais é necessário  - porém, óbviamente, a utilização destes outros recursos será decidida em conjunto com o paciente e dependerá de sua concordância.

Apresentarei agora os três casos, discriminando neles dois aspectos, com a finalidade de averiguar a existência ou não de pontos comuns entre eles e sua possível relação com as transformações clínicas – tal como propus inicialmente. São eles: fator que considerei fundamental dentro do trabalho analítico propriamente dito e transformações utilizadas. Lembremos ainda que nos três casos não se trata de neuroses, mas de distorções estruturais decorrentes de perdas traumáticas precoces – embora as mesmas possam estar encobertas por sintomas neuróticos. 

III – Estudo de Casos

Caso A 

O paciente apresenta Depressão grave, evidenciada através das primeiras palavras que me dirige: “Se não melhorar disto vou me matar, não agüento mais, você é minha última tentativa”. A já estivera em várias análises: “No início tudo ia bem, parecia que eu estava melhorando, mas depois de um ano mais ou menos tudo ficava paralisado, surgia um enorme vazio...” e A abandonava o tratamento, como fazia com tudo o mais na sua vida - relacionamentos amorosos, amizades, profissão, qualquer tipo de conquista positiva...tudo era cortado depois de um tempo  (na verdade, quando o ganho conquistado tornava a ameaça de perda insuportável).

Considero que foi fundamental, neste caso, eu ter conseguido sobreviver quando A tentou  cortar-me, como fazia com todos e tudo - o que implicou em manter-me sempre presente e viva (às vezes através do telefone, quando A sumia), mas cuidando para não invadi-lo. 

“Neste estágio do desenvolvimento, o sujeito cria o objeto no sentido de encontrar sua exterioridade. Deve-se acrescentar que esta experiência depende da capacidade  do objeto de sobreviver (neste contexto, sobreviver significa não retaliar). Se é durante a análise que estas questões aparecem, então o analista, a técnica analítica e o setting  analítico intervêm na medida em que eles sobrevivem ou não sobrevivem aos ataques destrutivos do paciente. Esta atividade destrutiva corresponde à tentativa que o paciente faz de colocar o analista fora do controle onipotente, quer dizer, de colocá-lo no mundo externo. Se  não faz a experiência da destrutividade máxima, o sujeito nunca coloca o analista no mundo externo e é por isso que ele não poderá fazer mais que uma auto-analise, utilizando o analista como uma projeção de uma parte de si mesmo. Em termos de nutrição, o paciente só poderá obter sua alimentação de si mesmo e não poderá utilizar o seio para desenvolver-se. Ele poderá até obter prazer da experiência analítica, mas não mudará verdadeiramente.”.... “Embora eu utilize a palavra destruição, vemos que a destruição efetiva se situa do lado do objeto, se ele não consegue sobreviver. Sem esta falha da parte do objeto a destruição permanece potencial. A palavra destruição é necessária, não em função da pulsão destrutiva do bebê, mas da propensão do objeto a não sobreviver, o que significa sofrer uma mudança na qualidade, na atitude.” (8)

Quanto às transformações  utilizadas, foram as seguintes:

Desde o início assumimos o compromisso de recorrer a um psiquiatra caso isto fosse necessário - o que até hoje não ocorreu.

A descrevia-me certos fenômenos que ocorriam com ele, que se encaixariam naquilo que é usualmente denominado como percepções e fenômenos extra-sensoriais.      Estes fenômenos ocorriam  sobretudo em sua atividade profissional e se por um lado o beneficiavam profissionalmente, por outro geravam grande angústia, uma vez que era algo que ocorria  fora de seu controle e compreensão. Acolhi este material dentro do processo psicanalítico, trabalhando-o no sentido de que ele procurasse compreender e desenvolver esta qualidade desconhecida  - o que implicou na inclusão da dimensão espiritual, que estava sendo trazida por A através deste significante.

A vivia um profundo conflito entre  permitir-se e  não  permitir-se conquistas  (que também o levava a cortar tudo), conflito que se manifestou de forma dramática quando estava próximo de  formar-se: embora fosse aluno brilhante, A começou a ser vítima de um completo bloqueio mental durante as provas - o que colocou em sério risco o término de sua faculdade. A entrou em pânico diante do poder de seu boicote e me pediu para utilizarmos a hipnose - pois necessitava, acima de tudo, compreender o que o levava a fazer aquilo (na verdade, os boicotes de A eram sintomas graves no início da análise, que  tinham sido profundamente trabalhados  - ele conhecia a maioria de seus motivos  - e sua força já diminuíra muito; tratava-se portanto de um novo ataque do boicotador interno). Através das técnicas da hipnose, fizemos um trabalho regressivo  que durou algumas semanas, implicando na elaboração das situações traumáticas que  iam emergindo através da hipnose. Após este trabalho o bloqueio cessou e A pôde levar avante seus estudos.

Quanto às mudanças ocorridas, desde que iniciou a análise, A nunca mais teve crises depressivas; atualmente, parou de cortar relações e conquistas - está terminando a faculdade, reatando amizades rompidas,  cada vez se permitindo mais aquisições positivas; esta nova situação se expressa no sonho em que o pai está bem, vem abraçá-lo e o ajuda em uma situação difícil (depois do abandono da mãe, o pai fora a única pessoa com quem pudera contar na infância – mas que, por ser uma pessoa muito perturbada psiquicamente, fora também seu algoz, submetendo-o a situações extremamente violentas e estressantes).

Caso B

B apresenta Síndrome de Pânico, encobrindo depressão grave. A Síndrome de Pânico coloca-a sob o domínio de um medo paralisante, que não a deixa fazer mais nada - não consegue nem mesmo sair de casa, precisa ser trazida por alguém para a terapia. Antes da eclosão desta crise, já evidenciava sinais de paralisação em sua profissão, não conseguindo usar assertivamente seu grande talento e não conseguindo assim qualquer realização profissional mais efetiva. Logo no início da análise, ficam evidentes sinais de uma depressão latente bastante antiga, com manifestações desde a infância; pouco depois deste início eclode a depressão - B passa as sessões inteiras chorando.

Neste caso, considero que foi fundamental minha adaptação às necessidades de B - no sentido de  estar disponível para atendê-la quando necessitasse e quantas vezes necessitasse, bem como de acolher sua necessidade de contato físico no momento da separação (ao término da sessão B me abraçava chorando muito - acolhia seu choro, percebendo que sua necessidade, ali, era que eu compartilhasse sua dor, que se sentisse acompanhada na mesma). 

Quanto às transformações utilizadas, pouco tempo após o início da analise resolvemos recorrer à ajuda de um psiquiatra, pois seu sofrimento era de tal ordem, que impossibilitava o trabalho analítico (C passava as sessões inteiras chorando). A própria paciente resolveu recorrer também à acupuntura - sendo que me relatava o trabalho  realizado pelo acupunturista e o que ele lhe dizia - incluindo desta forma  este trabalho em seu processo. Além disto, resolvemos juntas que B retornaria à prática de Yoga  (que B já conhecia, uma vez que já fora praticante); a Yoga ajudou-a a controlar as crises de pânico através da respiração, proporcionando-lhe assim mais tranqüilidade - e foi também uma via através da qual B incluiu a dimensão espiritual na sua análise.

Quanto às mudanças ocorridas, B elaborou o luto, o que se revela através de dois sonhos. 1º. sonho: Está em um barco e no banco a sua frente está uma criança; começa a brincar com ela e derrepente percebe que a criança é ela própria - a criança  vem para seu colo e as duas se abraçam de forma muito intensa, como se os corações se tocassem. Ao terminar o relato B me olha e diz: “acho que a ferida da criança está sendo curada”. 2º. sonho: Encontra a mãe em um jardim chorando - a mãe olha para B e diz “eu vou morrer” e as duas  se abraçam com muita intensidade (a mãe escondera de B a doença que a matou, nunca falara sobre o assunto e da mesma forma B negava a morte da mãe - em seu mundo interior encontrara um jeito de viver como se ela estivesse viva - o que tinha efeitos paralisantes em seu contato com a realidade). No momento B está reconstruindo sua vida, retomando o trabalho, como ela diz, “tornando-se adulta”.

Caso C


C apresenta um quadro de Neurose Obsessiva encobrindo depressão grave. Apesar de conseguir utilizar bastante bem suas capacidades positivas na vida profissional, C  gerou um total caos em sua vida financeira e familiar, o que acabou resultando em grave doença.

Considero que também neste caso foi fundamental eu ter conseguido sobreviver a seus constantes ataques ao vinculo  e ao trabalho que realizamos. Isto é, a meu ver, o que ainda o mantém em análise - embora de forma bastante precária. 

Quanto a possíveis transformações, não ocorreram. Há uma completa recusa, por parte do paciente, de qualquer outra ajuda que não seja da analista e da técnica psicanalítica estrita - tendo inclusive se recusado a recorrer a médicos, quando ficou seriamente doente, só o fazendo após árduo trabalho.

As mudanças conseguidas por C foram superficiais, pois embora tenha conseguido reorganizar-se, saindo do caos,   mantém-se aprisionado a uma vida insatisfatória, destituída de qualquer prazer, não se permitindo  saída alguma para esta situação. Mantém também dissociações graves, pois embora evidencie compreensão mental de sua problemática, não consegue utilizá-la para nada em sua vida, agindo como se tal compreensão não existisse; ou seja, embora evidencie insight nas sessões, a sensação que tenho é que C joga no lixo todo trabalho que realizamos. Minha compreensão deste caso  é de que C não consegue abrir mão de uma identificação maciça com a mãe sofredora e deprimida.

Vejamos então quais os pontos comuns entre estes casos.

Em dois deles o fator sobrevivência - no sentido  winnicottiano deste conceito - foi fundamental.
Em todos, em dado momento do processo, reconheci meus limites para lidar com a situação e a necessidade de recorrer a outras ajudas além da técnica psicanalítica estrita - ajudas que denominei transformações clinicas - e que podem ser incluídas no conceito de Winnicott de adaptação à necessidade do cliente. 

Os casos A e B, nos quais ocorreram mudanças significativas, aceitaram estas transformações ou as pediram (ou introduziram) eles próprios - ou seja, de certa forma, aceitaram a castração da analista e da psicanálise. Nestes casos, ficou evidente que a inclusão destes recursos foi fundamental para a resolução de impasses paralisantes no processo e portanto para as transformações subseqüentes. O caso C  não aceitou a inclusão de qualquer transformação, ou seja, precisou manter a analista como objeto idealizado onipotente, em relação ao qual mantinha-se também uma exigência totalitária de que “desse conta de tudo”. Segundo Winnicott, nestes casos o paciente quase que só se relaciona com objetos subjetivos  e percebe o  analista apenas como um feixe de projeções, não podendo utilizá-lo como um objeto externo real, fora da área de controle onipotente. 

“O início das relações objetais é complexo. Não pode ocorrer se o meio não propiciar a apresentação de um objeto, feita de um modo que seja o bebê quem crie o objeto. O padrão é o seguinte: o bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina de uma necessidade não  formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou um movimento que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato de experiência.” (9)

“A relação objetal é uma experiência do sujeito que pode ser descrita em referência ao sujeito enquanto ser isolado. No entanto, quando falo de utilização, estou partindo da relação objetal e acrescentando a ela novos traços relativos à natureza e ao comportamento do objeto. Assim, para ser utilizado, o objeto deve necessariamente ser real, no sentido de que ele está fazendo parte da realidade compartilhada e não é simplesmente um feixe de projeções. Penso que está aí o que contribui para criar um mundo de diferença entre a relação objetal e a utilização.” (10)

Parece-me que este foi um fator importante para levar o processo a um impasse insolúvel, no qual transformações tornaram-se inviáveis, pois, como diz Winnicott, nestas situações o  paciente só pode fazer uma auto-análise, usando o analista como uma projeção de uma parte de si mesmo – ele poderá até obter prazer na análise, mas não mudará verdadeiramente. Talvez neste caso houvesse uma falta precoce excessiva, levando a este tipo de fixação. 

Então, nos casos que aceitaram a inclusão de transformações clínicas ocorreram mudanças significativas e no caso que não aceitou tais mudanças não ocorreram. Será isto mera coincidência? Devo dizer que os outros três casos, que não pude apresentar por questões espaço-temporais, apontam na mesma direção. Faço então a hipótese de que, nestes casos, a sobrevivência foi um fator fundamental para a manutenção da análise, mas não foi suficiente para gerar mudanças; e a aceitação ou não, por parte dos pacientes, da castração da analista e da psicanálise - através da inclusão de transformações clínicas que implicam na utilização de outros recursos ou de outros profissionais - foi um fator crucial para o desfecho dos mesmos. Em linguagem winnicottiana, podemos dizer que o fator crucial foi a colocação do analista fora da área de controle onipotente, no mundo da realidade compartilhada  - coisa que os pacientes neuróticos fazem naturalmente, mas que, para o tipo de pacientes aqui descritos, se constitui em uma tarefa complicada, que exige um trabalho especial. Na verdade, estou sugerindo que, para este tipo de pacientes, além da sobrevivência, é necessário algo a mais para que eles possam passar de um mundo de objetos subjetivos controlados onipotentemente, para o mundo da realidade compartilhada onde objetos externos (não eu) podem ser usados.

Isto me leva a pensar sobre o que ocorre quando o próprio analista não se coloca no lugar da castração, impondo-se a exigência de dar conta de tudo ou demandando isto da teoria e da técnica psicanalítica. Faz-me também pensar em recente artigo no caderno Idéias do Jornal do Brasil, sobre o novo livro do neurocientista Antonio Damásio (Em Busca de Espinosa) , onde é dito: as recentes descobertas científicas vem obrigando filósofos, psicólogos, sociólogos e biólogos a travarem contendas acadêmicas extremadas, utilizando como marca principal desta nova era do conhecimento a cooperação entre as diversas disciplinas.

IV – Conclusão

Escolhi Winnicott para fundamentar teoricamente o  meu trabalho, porque o considero um analista a frente de seu tempo, que nos deixou as portas abertas para estas inclusões e transformações. Sabemos que a fonte na qual a psicanálise se alimenta é a clínica. Freud construiu sua teoria a partir de uma clínica predominante de neuróticos adultos. Winnicott, trazendo para a psicanálise sua extensa experiência como pediatra, propôs-se ao estudo do primitivo no psiquismo, ampliando com isto o campo da psicanálise - nele incluindo patologias que tem como núcleo  traumas precoces, ocorridos em um momento em que ainda não havia um ego suficientemente estruturado para lidar com eles e em situações em que estava ausente um ambiente suficientemente bom que funcionasse como ego auxiliar, decorrendo daí distorções estruturais de diferentes níveis. Os  casos que trouxe são casos deste tipo. Escolhi-os, porque penso  que  evidenciam com clareza que, para atender este tipo de pacientes,  a psicanálise precisa transformar-se, tanto em sua teoria como em sua técnica - na verdade e sobretudo na postura  do analista perante o outro - seu paciente e o mundo em que vive. Com seu conceito de adaptação à necessidade do paciente,  Winnicott abriu as portas para as transformações que vão se fazendo necessárias. Não propôs uma ou algumas modificações técnicas como sendo as corretas, mas deixou-nos  o desafio de usarmos nossa própria criatividade no contato com a clínica. A criatividade é, alias, outro conceito central na teoria e na pratica clínica winicottiana, com o qual me identifico integralmente, pois para mim é impensável uma clínica na qual ela esteja ausente. 

Neste momento de nossa história, em que grande parte de nossa clínica é composta por pacientes como os acima descritos;  em que nossos pacientes vivem em um tempo cada vez mais rápido (onde tratamentos longos se tornam questionáveis) e em um mundo cada vez mais instável economicamente  (em que freqüências semanais de quatro ou três vezes se tornam  inviáveis); e no qual a própria Ciência está mudando seus paradigmas - penso que é chegada a hora da  psicanálise abrir-se para estes novos paradigmas, incluindo-os e transformando-se a partir deles, desde que, como disse no início, não violente aquilo que constitui sua identidade essencial. As transformações que propus neste trabalho foram as que, dentro das disponibilidades da minha formação, me pareceram apropriadas para os casos em questão. Não quer dizer que sejam as certas nem as melhores - foram as que funcionaram nestes casos. O que mais me importa colocar aqui é que, ao incluí-las, em momento algum abandonei minha identidade de analista, ou seja, em momento algum percebi-me ferindo a essência e a ética da psicanálise.  Proponho portanto  que -  desde que este enquadre essencial seja mantido - os psicanalistas, dentro de suas possibilidades,  tenham a liberdade de usar sua criatividade para adaptar-se às necessidades de seus pacientes e do universo espaço-temporal em que estão vivendo. Não tenho dúvida de que, nos  casos em que não ocorreram nem aceitação nem mudanças, não consegui o ajuste fino e sutil entre minha criatividade e a necessidade destes pacientes. Mas também não tenho dúvida de que continuarei tentando, enquanto eles estiverem comigo e me dando assim, algum crédito de confiança.

Bibliografia

CAPRA, F. O Ponto de Mutação. São Paulo. Cultrix, 1982
NICOLESCU,B. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo. Trion, 1999
WINNICOTT, D. W. Da Pediatria à Psicanálise . Rio de Janeiro. Francisco Alves,  1982
                                O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre. Artes Médicas, 1983
                                 Jeu et Realité. France. Gallimard,  1975


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1 Trabalho apresentado na Jornada de Psicanálise de 2004 da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. 
2  International Review of Psycho Analysis, 1974
3 O Ambiente e os Processos de Maturação, artigo “A Integração do ego no desenvolvimento da criança”.
4 Da Pediatria à  Psicanálise, artigo “Preocupação Materna Primária”
5  Idem,  artigo  “O Ódio na Contratransferência”
6 Da Pediatria à Psicanálise,  artigo “Preocupação Materna Primária”.
7 Estado alterado de consciência é um estado no qual  são amortecidos ou cessam o pensamento racional, as sensações e as percepções de vigília – o que propicia o surgimento de outras percepções, inclusive de material inconsciente,  que não ocorrem no estado usual de consciência. Em linguagem psicanalítica poderíamos dizer que é um estado no qual o processo secundário fica amortecido – um estado semelhante ao que possibilita o sonhar.
8 O Brincar e a Realidade, artigo “A utilização do objeto e a relação objetal através das identificações” 
9 O Ambiente e os Processos de Maturação,  artigo “A Integração do Ego no Desenvolvimento da Criança”
10 O Brincar e a Realidade,  artigo “A Utilização do Objeto e a Relação Objetal através das Identificações” 


 

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