Tema: PSICANÁLISE E NEUROCIÊNCIA

Subtema: O Pensamento único

 

Resumo:

             Na contramão do sugerido pelos subtemas e argumentos, proponho uma possível colaboração entre psicanálise e neurociência, que pode ser enriquecedora para ambas. Com este propósito, examino as teorias de tres autores - dois neurocientistas e uma psicanalista e também física - que, utilizando novos paradigmas, desafiam a psicanálise com a proposição de um novo corpo e de uma nova concepção de transferência.

Palavras-Chave: paradigma, corpomente, rede psicossomática de informações, vibração

 

I - Introdução

 

             Minha escolha deste subtema tem o propósito de fazer uma denúncia a respeito do “pensamento único” ... da Psicanálise.  Ao escolher o tema “Psicanálise e Neurociência”, examinando os subtemas e os “argumentos”, dei-me conta de que o trabalho que desejava escrever não cabia em lugar algum, uma vez que os subtemas são claramente tendenciosos, partindo de uma posição preconcebida e, a meu ver, preconceituosa, de haver uma oposição e até uma incompatibilidade entre neurociência e psicanálise, sendo portanto impossível uma colaboração entre ambas.

             Penso que esta posição ignora ou não leva em consideração uma vertente importante da neurociência, a partir da qual pretendo defender justamente a idéia oposta - a de que psicanálise e neurociência não são incompatíveis e  de que uma colaboração entre ambas pode ser rica e proveitosa, trazendo um novo corpo e uma nova concepção de transferência para a psicanálise.

II - O Corpo na Psicanálise e o Paradigma que o sustenta

             O corpo com o qual lidamos em psicanálise é, em princípio, o corpo representado ou erógeno  - sendo este corpo considerado como diferente do corpo biológico, que estaria fora do campo da psicanálise.

Esta concepção fundamenta-se na teoria pulsional, uma vez que a pulsão - “conceito limítrofe entre o psíquico e o somático” (2) - foi a via que Freud nos deixou para inclusão do corpo na psicanálise: a pulsão - na verdade a pulsão sexual - com sua fonte somática, é representada no psíquico por seu representante representativo e pelo afeto.

 Fica evidente que a teoria pulsional fundamenta-se em um paradigma que parte da separação entre corpo e mente - pois o próprio fato da  pulsão ser um conceito limítrofe entre o psíquico e o somático mostra que Freud parte de uma separação entre os dois, que necessita da pulsão como uma ponte de ligação.  E não poderia ser de outra forma - sendo Freud um médico, que iniciou sua carreira trabalhando no laboratório de fisiologia de Brucke, é inevitável que  sua obra tenha sofrido a influência do paradigma cartesiano-newtoniano, dominante nos meios científicos de seu tempo.

 Conseqüência disto foi o corpo dito biológico ter ficado excluído de uma prática clínica que passou a privilegiar quase que exclusivamente o verbal. No extremo desta posição temos alguns teóricos que -  partindo de uma outra colocação de Freud sobre a pulsão, segundo a qual esta, como representante psíquico das excitações do interior do corpo,  é ela própria psíquica -chegaram a postular um corte radical e a existência de uma abismo entre o psíquico e o somático, defendendo que o campo da psicanálise é exclusivamente o psíquico, não tendo ela nada a fazer com o somático.

III - Um  Novo Corpo proposto por algumas vertentes da Neurociência e o Paradigma que o sustenta

             Algumas vertentes da neurociência apoiam-se em um tipo de paradigma que Thomas Kuhn denomina Paradigmas Emergentes (3) - que surgem rompendo com os paradigmas vigentes, quando os mesmos não dão mais conta da realidade com a qual a própria ciência vai entrando em contato.  Tais paradigmas vêm sendo postulados pela Física contemporânea, principalmente por Einstein e pela Física Quântica, que introduziram novos universos na Física - o “Mundo do muito veloz”  e o “Mundo do muito pequeno” (4). E também pela Transdisciplinaridade (5), movimento criado por Edgar Morin e outros, que propõe uma forma de interlocução e interação entre as várias disciplinas, que busca não só aquilo que as une, mas também aquilo que as atravessa, ou seja, que está entre elas e para além delas. Citaremos apenas três destes novos paradigmas, que interessam mais aos nossos propósitos:

A existência de diferentes dimensões da realidade - ou o paradigma da Multidimensionalidade:

Um nível de realidade é um conjunto de sistemas invariantes sob a ação de um número de leis gerais. O paradigma cartesiano-newtoniano propõe a existência de apenas um nível de realidade - aquele que é por ele reconhecido. Um novo nível de realidade surgiria quando, na passagem para ele, ocorresse ruptura de leis e conceitos fundamentais. Einstein - ao estudar a velocidade da luz,  e a Física Quântica - ao estudar a estrutura subatômica, introduzem novos níveis de realidade: o das grandes velocidades e o da estrutura quântica,  ambos diferentes do nível de realidade da estrutura macrofísica e das pequenas velocidades reconhecidas e estudadas pela física newtoniana; pois na passagem de um nível de realidade para os outros há ruptura de leis e conceitos fundamentais, ocorrendo  descontinuidades entre eles, embora  possam coexistir. Surge assim o paradigma da Multidimensionalidade, segundo o qual uma realidade una em sua essência, manifesta-se em diferentes dimensões, ocorrendo assim a pluralidade dentro da unidade.

O pensamento holográfico :

Propõe que não só o todo contêm as partes - mas também cada parte contêm o todo, conforme é demonstrado no holograma (foto realizada com a utilização do raio lazer).

A não separação entre observador e realidade:

      A dualidade onda-partícula mostra que a luz pode se comportar como onda ou como partícula, dependendo da natureza do experimento: se este testar suas propriedades ondulatórias, a luz se manifestará como onda, se testar suas propriedades de partícula ela se manifestará como partícula. De Broglie estendeu a dualidade onda partícula para toda matéria: elétrons e prótons também se manifestam como onda ou partícula dependendo de como nós decidimos testar suas propriedades. Assim, no mundo quântico, não podemos mais separar o observador do observado, pois nele o observador tem um papel fundamental na determinação da natureza física do que está sendo observado, ou seja, a realidade observada é resultado de nossa escolha.

       Afirma-se que as recentes descobertas da física avançaram até a misteriosa fronteira entre o sujeito e o objeto. Essa fronteira não é uma fronteira nítida de fato. Somos levados a entender que nunca observamos um objeto sem que ele seja modificado ou tingido por nossa própria atividade de observá-lo... O mundo me é dado somente uma vez, não uma vez como existente e uma vez como percebido. Sujeito e objeto são apenas um...essa barreira não existe. (6)

             Partindo destes novos paradigmas, algumas vertentes da neurociência, como por ex. a atual psiconeuroimunologia, cunharam um novo termo, o corpomente, acabando assim com a separação cartesiana entre corpo e mente. Para estes neurocientistas o corpo é a mente ou a mente é o corpo “....soma é psíquico e psíquico é soma - o psicossomático” (7).  Exporei brevemente, a seguir,  o pensamento de três autores sobre este tema - dois neurocientista e uma psicanalista.

1. James L. Oschman, PhD, especialista em Medicina Energética e autor de Energy Medicine - The Scientific Basis (8)

              Oschman  cria o conceito de Matriz Viva - formada pelo conjunto das matrizes nucleares (onde estão os genes), que estão dentro das matrizes celulares ou citoplasmáticas (arcabouços celulares formados por filamentos, tubos, fibras, trabéculas e líquidos intracelulares) que por sua vez estão dentro das matrizes extracelulares (tecido conectivo). A Matriz Viva é então uma rede supra-molecular contínua e dinâmica que se encontra por todo corpo; ela não tem uma unidade fundamental ou aspecto central, nenhuma de suas partes é mais básica ou primária; as propriedades da rede inteira dependem das atividades integradas de todos seus componentes; efeitos em uma parte do sistema se espalham por todas as outras partes do sistema - assim, quando se toca um corpo, se está tocando um sistema interconectado continuamente, composto por todas moléculas do corpo ligadas em  uma rede intrincada.

A principal característica da Matriz Viva é que ela é também uma rede de comunicação e informação. Esta rede envolve simultaneamente dois tipos de linguagem: a química, que propicia uma forma de comunicação importante mas lenta, e que é formada pêlos receptores peptídicos das membranas celulares e pêlos hormônios, transmissores e neurotransmissores; e a energética, muito mais rápida, que subdivide-se em dois tipos - a elétrica, comunicação que ocorre nos nervos e músculos - e a eletrônica, dança de prótons e elétrons que ocorre na matriz extracelular e no espaço intracelular (é assim, por exemplo, que ocorre - na escala subatômica -  a comunicação entre receptores celulares e transmissores, ou seja, o reconhecimento de um transmissor específico por um receptor depende de uma interação vibratória ressonante entre ambos, onde a estrutura eletrônica das moléculas de ambos começa a se transformar, possibilitando a aproximação e o “encaixe” de ambos). Estas linguagens possibilitam que cada célula receba informações sobre as atividades que estão ocorrendo em todas as outras partes do corpo - para assim ajustar rápida e apropriadamente suas atividades às atividades do resto do sistema.

 A Matriz Viva é portanto uma rede estrutural e vibratória, onde o que ocorre em uma parte repercute em todo sistema: se você puxa um tendão, a rede inteira vibrará; por outro lado, bloqueios em uma parte têm conseqüências estruturais e energéticas para o organismo inteiro.

Ao falar de comunicações e informações que ocorrem química e energicamente no corpo, o autor está introduzindo o conceito de uma linguagem não simbólica, em permanentemente atividade. Fenômenos por nós observados e reconhecidos - como por exemplo a transmissão  inconsciente - que no entanto ainda permanecem em uma zona de mistério, poderiam, a meu ver,  ser melhor compreendidos através dos conceitos acima expostos. Um psicanalista capta muito mais do que seu paciente diz, e o faz não só interpretando o que está (re)velado em suas palavras, mas também através de todo seu corpo (e do corpo do cliente): pois se nossos ouvidos captam ondas sonoras que são interpretadas por nosso cérebro, nosso corpomente capta outros tipos de ondas, de freqüências mais sutis...uma transmissão inconsciente que pode, no entanto,  ser conscientizada. É através desta vias que um psicanalista também transmite muito mais do que suas palavras... e que situações traumáticas vão sendo transmitidas de geração em geração, sem nunca terem sido simbolizadas e verbalizadas, permanecendo sempre inconscientes....

2. Candace Pert, PhD, bióloga molecular e neurocientista, autora de Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine (9)

             Pert nos fala da descoberta de um 2o. Sistema Nervoso de base química, mais antigo, mais básico e mais extenso que o Sistema Nervoso até então reconhecido (formado pela rede de neurônios dos Sistemas Nervosos Central e Periférico). Este 2o. Sistema Nervoso é formado por “receptores” - moléculas sensitivas localizadas na membrana celular e por “ligadores”- moléculas que carregam informações, sendo que cada receptor tem um ligador específico que corresponde a ele. Quando um ligador se liga ao receptor correspondente, produz neste uma vibração através da qual a informação trazida pelo ligador é transmitida para dentro da célula, gerando nesta uma cadeia de reações bioquímicas (“linguagem” química + energética-eletrônica, segundo Oschman) Estes fenômenos que ocorrem a nível celular podem manifestar-se em emoções, pensamentos e comportamentos.

             Existem vários tipos de ligadores (como por ex. os neurotransmissores), mas 95% deles são peptídios que, ligados aos receptores correspondentes formam o que Pert denomina “moléculas da emoção” ou “substâncias informativas”, segundo Francis Schimitt. Estes peptídios se movem através do espaço extra-celular, do sangue e do fluído cérebro-espinhal, viajando grandes distâncias e encontrando seus receptores alvo em regiões tão distantes, que seu sistema de comunicação faz lembrar o Sistema Endócrino, cujos hormônios viajam por toda extensão e largura de nosso corpo. Acredita-se hoje que apenas 2% (Miles Herkenham)  da comunicação neuronal ocorre através do Sistema Nervoso Cérebro-espinhal, ficando o restante por conta deste “2o. Sistema Nervoso”, que realiza assim a comunicação entre os vários sistemas do corpo, propiciando a integração entre suas estruturas e funções. Pert considera estes sistemas integrados como uma “rede psicossomática de informações”, ocorrendo simultaneamente no cérebro e no restante do corpo, e na qual um constante fluxo de informações se move através de células, órgãos e sistemas (todos os sistemas, inclusive os Sistemas Nervosos Centrais e Periféricos), ou seja, o substrato físico deste fluxo de informações é o corpo todo ( e não apenas o Sistema Nervoso Cérebro-espinhal); esta rede inteligente é o  corpomente, que organiza e dirige todos os sistemas. Inclusive, foi este tipo de descobertas que permitiu o desenvolvimento da neurociência para a atual psiconeuroimunologia - que percebe o corpomente como um todo integrado.

             Portanto, todas as informações sensoriais que chegam ao nosso corpo são transmitidas não só através do Sistema Nervoso Cérebro-espinhal, mas também e principalmente através deste “2o. Sistema Nervoso”. Estes processos se dão inicialmente no nível inconsciente e é no nível celular que as informações serão filtradas, permanecendo inconscientes ou acendendo à consciência, pois a modificação que o ligador unido ao receptor (“molécula da emoção”) gera na membrana celular, poderá facilitar ou bloquear o processo de transmissão; ou seja, a informação que entra na célula pode ser armazenada  e sua transmissão bloqueada (permanecendo inconsciente) ou facilitada (ascendendo à níveis conscientes); esta “decisão” dependerá da quantidade e qualidade de receptores existentes em cada célula ( fator que está relacionado a todas experiências de vida, ocorridas desde o nascimento até o momento presente), bem como do que está sendo transmitido pêlos ligadores a cada momento. Diz Per:

Usando neuropeptídios como sinais, nosso corpomente recupera ou reprime emoções e comportamentos......A decisão acerca do que se torna um pensamento subindo para a consciência e o que permanece um padrão de pensamento não digerido e submerso nas profundezas do corpo é mediado pêlos receptores.

Vemos assim que a memória é também armazenada em uma rede psicossomática que se estende por todo o corpo:  “ as mudanças bioquímicas forjadas à nível dos receptores são a base molecular da memória” ( Dr. Eric Kandell e colab., Universidade de Colúmbia). Continua Pert:

Eu gosto de especular que a mente é o fluxo de informações que se move entre as células, órgãos e sistemas do corpo. E desde que uma das qualidade do fluxo de informações é que ele pode ser inconsciente, ocorrendo abaixo do nível que podemos perceber, nós o vemos em operação no nível autônomo, involuntário de nossa fisiologia. A mente, como nós a experimentamos, é imaterial e tem um substrato físico que é tanto o cérebro quanto o resto do corpo - ou também pode ser dito que ela tem um substrato não material, não físico, que é o fluxo de informações. A mente, então, é aquilo que mantém a rede como rede, freqüentemente atuando abaixo da nossa consciência, ligando e coordenando os sistemas todos e seus órgãos e células, em uma inteligente orquestração da sinfonia da vida. Assim, podemos nos referir ao sistema inteiro como uma rede psicossomática de informações, unindo a “psique” - que compreende tudo que tem uma natureza ostensivamente não material, como mente, emoção, alma, ao “soma”- que é o mundo material de moléculas, células e órgãos. O corpomente - o psicossoma.Tivemos então que considerar um sistema com inteligência difundida por ele todo, ao invés de uma operação de mão única, obedecendo estritamente às leis de causa e efeito, como antigamente nós pensávamos, quando acreditávamos que o cérebro era o governador de tudo. Assim, se o fluxo das nossas moléculas não é dirigido pelo cérebro, e o cérebro é apenas mais um ponto nodal na rede, então temos que perguntar - de onde vem a inteligência, a informação que dirige nosso corpomente?

 

3. M. Beatriz Breves Ramos, psicanalista e física, autora de Macromicro - A Ciência do Sentir (10)

Partindo de  uma abordagem transdisciplinar, Ramos atravessa a física moderna, a biologia, a psicanálise e a arte  para construir uma nova teoria, na qual concebe o ser humano como “um complexo vibratório macromicro”, que manifesta-se, para a percepção humana, como um ser biológico (material)  em nível macrocósmico (que refere-se aos aspectos da natureza que nossos sentidos alcançam) e como um ser psicológico (energético) em nível microcósmico (que refere-se aos aspectos da natureza que nossos sentidos não alcançam). Mas esta fronteira entre o macrocósmico e o microcósmico, entre o visível e o invisível, entre matéria e energia, na realidade não existe - ela apenas se faz presente em função das limitações da percepção humana, ou seja, em função da forma como a evolução do universo nos “construiu”; se tivéssemos evoluído de uma outra forma, que nos possibilitasse perceber o nível microcósmico, perceberíamos a nós mesmos como um complexo energético - pois sabemos hoje que nossas células são constituídas de átomos que possuem em seu interior enorme potencial de energia. Sendo então o ser humano um complexo vibratório macromicro, as relações humanas processam-se sempre através de pulsos vibratórios, tanto a nível perceptível (onde por ex., a voz é uma onda mecânica emitida) quanto a nível inconsciente; esta relação vibratória entre os seres humanos é, segundo a autora,  regida pelo “Princípio da Interação”, de acordo com o qual é impossível sequer observar outro ser humano sem interferir nele e sem ser interferido por ele. Ë este Princípio que rege uma nova concepção de transferência, que inclui a contratransferência e na qual ambas não são apenas fenômenos referentes à repetição, mas também novos fenômenos que se produzem no momento presente da relação analítica, segundo a interação que está ocorrendo entre cliente e analista, que por sua vez está relacionada ao que está ocorrendo no mundo interno e externo de ambos e no ambiente que os cerca. Como vemos, trata-se de uma concepção ampliada de transferência - e a autora propõe então o “sentir” como o instrumento adequado para captar a totalidade do que se passa na transferência a cada momento: o sentir engloba tanto as sensações ( manifestação do sentir a nível macrocósmico) quanto os sentimentos (manifestação do sentir a nível microcósmico) e é a vivência vibratória que podemos experimentar do complexo vibratório que somos nós mesmos e os outros. O sentir é o 1o. momento do trabalho analítico - só em um 2o. momento podemos tentar simbolizar em palavras o que foi captado através do sentir, criando uma interpretação.

Como podemos notar, são muitos os pontos em comum entre estes autores (as palavras sublinhadas visam colocar em relevo estes pontos). Todos falam de uma linguagem, de uma forma de comunicação não simbólica, de uma inteligência não racional, aonde apagam-se as fronteiras entre o corpo e a mente, entre o somático e o psíquico. Vejamos então qual a possível relação destas teorias com a psicanálise, e que contribuição elas podem nos trazer.

IV - Relações possíveis entre Psicanálise e Neurociência

             O campo que tem sido prioritariamente desenvolvido pela psicanálise até hoje é  o campo do pulsional, sobretudo  das pulsões sexuais -  do inconsciente recalcado, dinâmico, das fantasias inconscientes, das formações do inconsciente. Campo do sentido, do representado, manifesto em associações livres passíveis de interpretação. Campo da palavra. Com o conceito de pulsão de morte, no entanto, Freud introduz uma nova dimensão na teoria das pulsões - a de uma pulsão silenciosa, que não se faz representar no psíquico. Se ela não está representada no psíquico, aonde, então, ela está?

Penso que é o paradigma da separação corpo x mente que nos leva a este tipo de impasse, sobre o que está dentro ou fora do psíquico - fazendo-nos deslizar para colocações perigosamente localizacionistas ( por ex., aonde está o que está fora do psíquico? No corpo?). De acordo com os novos paradigmas anteriormente expostos, que eliminam  esta separação, a distinção que passa a importar para nós, não é mais entre o biológico e o psíquico, mas entre o que já teve ou não representação no Sistema Préconsciente-Consciente, ou seja,  entre o inconsciente recalcado, objeto de nossas investigações clínicas, e aquilo que sempre foi inconsciente - experiências que jamais tiveram representação no Sistema Préconsciente- Consciente.

Em seu artigo “Modernidade, trauma e dissociação: a questão do sentido hoje” (11), Luis Claudio Figueiredo nos aponta para uma dimensão clínica carente de mais pesquisa e maior desenvolvimento - uma dimensão também presente em Freud, da ordem do Primitivo e do Traumático e das defesas radicais a eles relacionadas, gerando falhas estruturais e/ou os assim chamados estados dissociados. Se olhamos com cuidado para esta clínica, percebemos existir aí algo também silencioso, ou seja, sem registro no psíquico, que nunca esteve no campo do sentido, embora busque aí chegar. Esta clínica nos aponta, assim, para um outro campo de pesquisa. Luis Cláudio nos remete então, assim como Otávio Souza no artigo “Nota sobre algumas diferenças na valorização dos afetos nas teorias psicanalíticas”(12), para os autores (Como Ferenczi, Fairbain, Winnicott e outros) que enfocaram predominantemente o campo das experiências primitivas na relação com o outro, experiências da ordem da sobrevivência e da necessidade e portanto anteriores ao pulsional representável - que na verdade proporcionam uma continência ao pulsional, possibilitando assim  que ele tenha acesso à representação e passe a fazer sentido ; em outras palavras, estamos falando de experiências que proporcionam condições ao exercício do simbólico. As falhas neste campo de experiências, dependendo de sua gravidade, geram falhas estruturais e/ou estados dissociados que, ao surgirem na clínica, demandam novas formas de manejo, diversas daquelas apropriadas para lidar com o inconsciente recalcado em estruturas já estabelecidas. Como lidar com este silencioso , que não tem representação no psíquico, que está fora do campo do sentido e portanto não é verbalizável?

“A lembrança permanece imobilizada no corpo e é somente aí que ela pode ser acordada” (13). Sándor Ferenczi, clínico sagaz de grande sensibilidade e coragem, ao lidar com seus casos difíceis, deu-se conta de que, neles, não bastava limitar-se ao corpo representado - criando, em função disto, sua técnica ativa, que inclui o outro corpo - o somático, o biológico. Wilhelm Reich postula a existência de couraças musculares que guardariam experiências traumáticas congeladas, fundamentando nesta hipótese sua caracteriologia, que inclui o corpo somático de forma ainda mais radical, tanto que a partir de seus postulados teóricos e técnicos, Alexander Lowen e John Pierrakos criaram a Bioenergética, da qual derivam-se algumas Terapias Corporais contemporâneas ( Core Energtics, Biossíntese e outras). Embora Ferenczi e Reich tenham sido atacados, perseguidos e excluídos  - penso que foram precursores, à frente de seu tempo, pois tanto sua produção teórica quanto sua prática clínica apontam na direção dos novos paradigmas aqui expostos. Os novos conceitos deles derivados - sobretudo o corpomente como uma rede psicossomática de informações - mostram que qualquer informação  que atinja nosso corpo provocará, através de vibrações (lembremos que é através de vibrações, que o receptor transmite para a célula a informação trazida pelo ligador ) , alterações celulares que poderão permanecer inconscientes ou tornar-se conscientes, manifestando-se  em nossas  emoções, ações e pensamentos. Penso  que estas novas descobertas  tornam mais compreensíveis, e talvez até possam confirmar as postulações de Ferenczi sobre lembranças imobilizadas no corpo,  e de Reich sobre  couraças musculares que guardariam  experiências traumáticas congeladas -  uma vez que, segundo elas, determinadas informações  que atingem  o nível celular, podem permanecer  guardadas neste nível, sem ascender à consciência.

Desta forma, propondo um novo corpo ( o corpomente ) e uma nova visão de transferência ( regida pelo Princípio da Interação e incluindo a contratransferência), as três teorias expostas, originadas da Neurociência e da Física Quântica, validam as propostas de Ferenczi e Reich de inclusão do trabalho corporal dentro do processo psicanalítico, fornecendo a fundamentação teórica e científica que lhes faltava.

Penso então que esta pode ser uma das formas de lidar com a dimensão  clínica anteriormente apontada - da ordem do primitivo e do traumático e também do silencioso, sem representação, fora do campo do sentido - que demanda novas formas de manejo, pois, com muita evidência, as formas que utilizamos para lidar com o inconsciente recalcado não lhe são apropriadas. É fato sabido por quem já experimentou ou presenciou sessões de trabalho corporal, que o mesmo pode fazer emergir, através de imagens, conteúdos inconscientes traumáticos, que permaneciam inconscientes depois de anos de análise, sem nunca terem se manifestado. Nas teorias anteriormente expostas podemos encontrar fundamentação teórica para este efeito dos trabalhos corporais - uma vez que, de acordo com elas, através destes trabalhos novas informações sensoriais podem atingir as células, criando assim condições “facilitadoras” para o acesso à consciência.

No entanto, ocorre que muitas vezes os terapeutas corporais não estão preparados para lidar com o material que emerge - que pode então perder-se ou, pior, retraumatizar o cliente, gerando surtos psicóticos ou somatisações graves como defesa. Isto ocorre sobretudo quando as resistências do ego são quebradas muito rapidamente pelo trabalho corporal, sendo o mesmo invadido por conteúdos inconscientes com os quais ainda não pode lidar. Enquanto que o psicanalista é um profissional preparado para lidar tanto com as resistências quanto com o material que emerge do inconsciente,  podendo assim ajudar o cliente a lhe dar um sentido.

Creio então que chegou a hora de rompermos o tabu do toque e de considerarmos a possibilidade de incluir o corpo, com seus infinitos mistérios a serem simbolizados, quando o caso ou a situação transferencial-contratransferencial do momento apontar para esta necessidade e o analista tiver a disponibilidade e a formação adequada para tanto. Pois afinal, como mostra Ramos em sua nova concepção de transferência, querendo ou não, tocamos o corpomente do cliente com nossa simples presença. De qualquer forma, penso que devemos estar abertos às contribuições que a Neurociência e a Física Contemporânea podem nos trazer, deixando-nos tocar por elas. Trata-se de um fascinante campo de pesquisas, à margem do qual a psicanálise não deveria ficar.

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(1) Trabalho apresentado no Segundo Encontro dos Estados Gerais da Psicanálise, Rio de Janeiro, 2003

(2)FREUD, Sigmund (1915). Os Instintos e suas Vicissitudes. In:___. Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (ESB, v. XIV). P. 142.

(3) KUHN,T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.

(4) GLEISER, M. A dança do Universo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

(5) NICOLESCU, B. O manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Perspectiva, 2001.

(6) SHRÖDINGER, E. O que é a vida? São Paulo: Fund. Ed. Unesp, Cambridge, 1997

(7) RAMOS, M. B. Psicossomática Contemporânea: um novo paradigma. 1999-2000. Apostilha Curso Especialização em Psicossomática Contemporânea. CEPAC-UGF, Rio de Janeiro

(8) OSCHMAN, J. Energy Medicine - The Scientific Basis. Londres: Churchill Livingstone, 2000.

(9) PERT, C. Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine. New York: Touchstone, 1999.

(10) RAMOS, M.B. macromicro - A Ciência do Sentir. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

(11) Corpo, Afeto e Linguagem, a questão do sentido hoje.Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

(12)  Idem.

(13)  FERENCZI, S. Notas e fragmentos., In:___. Obras Completas - Psicanálise 4. S. Paulo: Martins Fontes

 

            

 

Um Novo Corpo Para a Psicanálise (1)

Maria Lucia Pilla

(Apresentado no Segundo Encontro

dos Estados Gerais da Psicanálise, RJ, 2003)

 

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