Psicossomática Atual: uma reflexão

Mirian Cézar Carneiro da Cunha

(2006)

    A Psicossomática Atual objetiva o resgate da integração do Ser através da interseção do conhecimento histórico - prestando ênfase à natureza humana, com o conhecimento científico atual.

    E através de algumas ilustrações históricas sobre a interseção da natureza humana e suas concepções científicas, pretendo iniciar uma reflexão sobre a construção do pensamento psicossomático e suas contribuições terapêuticas.

 

Psicossomática Atual: Uma Reflexão

 

     Desde os tempos mais remotos, o sofrimento humano demanda espaço para busca de alívio e cura da dor.

No período pré-histórico (mais ou menos 17 mil anos atrás), o homem, mergulhado no obscurantismo científico, aterrorizava-se com os fenômenos da natureza: causavam-lhe pânico as noites sem luar, os raios, os tremores da terra. Surge, então o sacerdote (xamã) como mestre e curador. Observava os animais, a chuvas, as plantas... E a partir desses “conhecimentos” criava poções e rituais para expulsar os “espíritos malignos” causadores dos transtornos.(1)

     Foram os primeiros professores, médicos, psicólogos... Os primeiros psicossomaticistas.

     O termo psicossomática resulta da união dos termos gregos: psiqué = sopro, alma, mente; e somatikós = matéria, corpo.(2)

     Os primórdios místicos da concepção psicossomática determinada por uma natureza submetedora do Ser, vai cedendo lugar aos primórdios mítico-racionais da concepção ocidental, encontrada na mitologia grega.(3)

     O mito grego, com seus heróis e deuses, surge da natural demanda humana de conhecer o mundo que lhe cerca.

     A Natureza, ainda poderosa, através do mito ”comunica-se” com o homem.

     Homens e deuses aproximam-se: o que diferencia uma natureza da outra é a imortalidade, prerrogativa dos deuses.

     O mito ”aplaca” o medo, por ”tudo explicar”.

     O mito psique aborda a concepção psicossomática do homem grego e temas como corporificação, reencarnação e transmigração.(4)

     A indissociação entre soma e psique fundamenta os cuidados com a saúde: cuidar da saúde é cuidar do Ser (psicossomático).

     Os primeiros médicos foram ”deuses-médicos”, e o mais famoso Asclépio, era filho de Apolo.(5) Os gregos adoecidos dirigiam-se ao templo de Asclépio na busca de resgate da saúde. As terapêuticas prescritas pelo seu representante (o sacerdote) incluía música, leitura, ginástica. Assim, a medicina-mítica parte do princípio de que a harmonia e ordem divina exerciam influência sobre a natureza humana.

     Com a introdução da filosofia grega (mais ou menos V a.c) a concepção mítica vai cedendo lugar ao pensamento racional sobre a natureza humana: o interesse do homem dirige-se para o homem.

     Para os filósofos gregos sofrimento e doença são entendidos como expressão da ignorância do homem em relação a si mesmo e a natureza que o cerca.(6)

     O mais ilustre representante deste movimento é Hipócrates (460 – 377 a.c), ”pai da medicina”, que com seu conjunto teórico baseado na observação clínica - ”Corpus Hipocraticum”, inscreve as primeiras páginas da medicina e da concepção psicossomática atual. Segundo ele, o homem é visto como um Todo.(7)

     Hipócrates inaugura o pensamento médico-científico que não só questiona, observa como também elabora teorias com fins pragmáticos, entre outras, a Teoria Humoral, que expressa a integração entre o Homem e a Natureza (8).

     Com a expansão, Roma submeteu a Grécia e outros povos (Império Romano) às concepções hipocráticas, e a estas somaram-se os conhecimentos árabes da medicina,(9) que encontra em Galeno (131 – 200 a.c) sua maior expressão. As teorias galênicas principalmente as referidas às terapêuticas (sangrias, eméticos, purgantes e exsudatórios mais polifarmácia) perduraram, no ocidente até o século XIII.

     Um movimento antagônico relacionado à cultura greco-romana influenciou, em parte, o fortalecimento da Igreja Católica: em lugar da libertinagem e glutonia, os primeiros cristãos orgulhavam-se da abstinência e frugalidade da dieta como também da solidariedade entre ”irmãos” nessa era de escravidão. Fortalecida com esses ideais a Igreja passou a dominar o pensamento ocidental: a fé tornou-se mais importante que a lógica (10). O homem total cede lugar ao homem cindido: aos estudiosos cabem os conhecimentos sobre a ”matéria humana” (somatikós) e aos religiosos cabe o sofrimento humano advindos do ”não visível” (psique).

     A Igreja patrocina hospitais, universidades, introduz o latim como a língua oficial das ciências, num movimento de domínio do saber.

     O descontentamento das imposições escolásticas (o conhecimento serviço do dogma religioso), e o descobrimento de Novos Mundos, com sua fauna e flora, trouxeram um novo momento histórico-científico:  o renascimento do pensamento greco-romano ”enclausurado” pela Igreja Católica.

     Como em todo movimento de libertação, seu momento primevo é confuso: o homem renascentista quer ousar, quer investigar por conta própria e aventurar-se em concepções de conhecimento que aliam os conhecimentos clássicos (greco-romanos) aos componentes místicos e novas descobertas.

     Todas as teorias sobre a natureza humana passam a ser absorvidas. As idéias clássicas sobre a natureza humana são resgatadas, porém o rigor e cuidado relativos à aplicabilidade dessas idéias não correspondem aos originais.(11)

     Essa ousadia humana adicionada às idéias cartesianas (”penso, logo existo”) fornece bases para uma nova ideologia: do homem clássico partícipe da natureza; surge o homem dono da natureza – descobridor e dominador.

     O homem dá seu nome às novas descobertas: bacilo de Koch, doença de Alzheimer, trompas de Falópio...(12)

     O medo (de uma natureza assustadora ou do castigo divino) não impede a busca de conhecimentos que pouco a pouco trazem à luz da ciência os enigmas humanos.

     A separação entre somatikós (matéria, corpo) e psique (alma, mente), instalada na Idade Média (de 476 a.c a 1453 d.c), reivindica uma reparação científica e psique se faz presente sendo consagrada nas escolas PSI (psiquiatria, psicologia, psicanálise)(13), deslocando-se a concepção religiosa (alma) para as funções neuronais e mentais.

     A psicanálise consagra este espaço privilegiado de psi no conhecimento científico. À compreensão dos estudos psicanalíticos associa-se a história de seu criador, Sigmund Freud (1856 – 1939) que, nessa área, é reconhecidamente o representante desse movimento Iluminista iniciado no século XVIII.

     Apesar de estudar medicina numa das escolas mais ortodoxas da Alemanha (Helmholtz) que impunha abordagem mecanicista e organicista da neurologia e psicologia, com influencia nas bases da construção teórica da psicanálise, Freud, desde o início na universidade, determina-se a estudar sobre a natureza humana, revelando um ideal humanista que o acompanhará por toda vida.(14)

     Em seu primeiro livro, ”Contribuições à concepção das afasias” (1891), onde defende a idéia de que os transtornos de linguagem desta afecção devem ser investigados no funcionamento neuronal mais do que na localização cerebral, já revela seu espírito investigador, assim, a partir da disfunção (doença) encontra a função (saúde). E desde já mostra seu interesse pela natureza psíquica humana, tão precariamente compreendida pelo meio médico de sua época.

     Essas idéias, atraíram pacientes que apresentavam transtornos físicos sem comprovações orgânicas (neurastênicos e histéricos) e que a terapêutica da época (eletrochoque e banhos) se mostravam ineficientes no processo de cura.(15)

     Atraído pelos estudos de Charcot (1825 – 1893), viaja a Paris e identifica-se com a nova concepção sobre a histeria que defendia a influencia dos processos psicológicos na formação de sintomas físicos. Para comprovar sua teoria utiliza-se da hipnose.(16)

     Ao praticar essa nova técnica terapêutica em sua clínica depara-se com pacientes não acessíveis a ela e busca então, em Nancy, nos estudos de Bernheim (1840 – 1914) sobre a sugestão, novas fontes para o aprimoramento técnico.(17)

     Porém foi com Breuer (1842 – 1925) e sua teoria sobre histeria e técnica de ab-reação, que Freud deu os primeiros passos em direção à construção da psicanálise.(18)

     Sem dúvida, a concepção de um segundo grupo psíquico, uma nova construção científica diferente da que enfatizava a consciência como característica humana, foi seu primeiro conceito perturbador da humanidade: o conceito de Inconsciente e o determinismo psíquico.

     Somos ”regidos” pelo Inconsciente.

     Inaugura, assim, o que foi interpretado pela filosofia, como a terceira grande ferida narcísica da humanidade. A primeira refere-se à teoria heliocêntrica de Galileu (1564 – 1642) que destronou a Terra como centro do universo ao descobrir ser o Sol. A segunda refere-se à teoria da evolução de Darwin (1809 – 1882) que revelou não ser o homem  a imagem da criação divina, mas a evolução de seu ancestral, o macaco.

     Mais interessado em aprender com seus pacientes do que em envolver-se com a repercussão de suas idéias no mundo científico, Freud elabora uma nova teoria que também perturbou as concepções da época: a teoria da sexualidade.

     Afirma que os distúrbios neuróticos e psicóticos eram fundados nos transtornos sexuais. A princípio (1ª teoria da sexualidade – teoria da sedução) esses transtornos eram localizáveis, provocados pela excitação genital que o aparelho psíquico não desenvolvido era incapaz de absorver. Sem comprovação, essa teoria foi logo rejeitada e modificada -  de genital passa a ser enfatizado o sexual, da localização passa-se para a função...

     Freud, fiel a seus ideais, sofre o desgaste dessa fidelidade, porém transforma a fonte de frustração em nova descoberta que veio a tornar-se um dos conceitos importantes na mudança de paradigma, a Fantasia: mais importante, na fala do paciente, não é a realidade factual, mas a realidade psíquica na organização dos transtornos psíquicos.

     Neste sentido, caminha na direção da construção de um aparelho psíquico, que ancora-se no biológico, refere-se a ele, mas tem autonomia para desenvolver-se com suas próprias leis.

     Em a ”Interpretação dos sonhos” (1900) Freud inaugura a psicanálise. Um novo século, uma nova era. Atualiza, como nos sonhos, as noções de psi, desvirtuadas na Idade Média e desvalorizadas pela ciência médica positivista iniciante. A teoria dos sonhos traz à luz da ciência o que era destinado aos curandeiros e místicos.

     Encontra na metapsicologia (termo criado em 1896, para qualificar o conjunto de sua concepção teórica e distingui-la da psicologia clássica) as bases para fundamentar seu corpo teórico (ponto de vista dinâmico, topográfico e econômico) e ferramentas para a sua técnica analítica (associação livre, resistência, transferência).(19)

     A psicanálise, por ser tão abrangente, possibilitou o surgimento de novas escolas que ”apóiam-se” em alguns de seus conceitos, entre elas, a Psicossomática.

     A primeira escola de psicossomática (Escola de Medicina Psicossomática de Chicago – 1939) foi criada por médicos-psicanalistas que, trabalhando em hospitais, identificavam algumas doenças orgânicas (alergias, úlceras, colite...) diretamente originadas nos transtornos psíquicos. Neste sentido, o conceito psicossomático estava relacionado a um adjetivo, referia-se a uma ”qualidade” da doença. Com o interesse da medicina e da psicanálise, buscando visão integralista do Ser, surgem novas concepções, umas enfatizando somatikós (corpo) outras psique (mente) na tentativa de valorizar o homem e a relação entre seus componentes psico-somáticos.

     Desde seu momento primevo a medicina psicossomática brasileira (1958) expressa uma ideologia humanista através da Medicina da Pessoa (Danilo Perestrello), com a inclusão de fatores sociais e ênfase da relação médico-paciente.(20)

     Apesar das contribuições teóricas na construção do pensamento psicossomático, as inquietações advindas da clínica nos remete a uma demanda comum dos pacientes: o resgate de sua integração, demanda essa manifestada através de diferentes formas de expressão de sofrimento (inclusive o não-sofrimento) e variadas buscas terapêuticas (médicas, religiosas, naturais...) revelando a falta de recursos internos e externos onde ampararem-se.

     Cabe a cada profissional abrir espaço para escuta e trocas de conhecimentos...

     Na psicanálise encontramos uma chance de sair da concepção dualista (psique e soma) através dos estudos da Escola de Paris (1947) com sua ênfase à teoria das pulsões na economia psicossomática (21); com mesmo interesse encontramos a Teoria Macromicro, mais especificamente as concepções de campo vibratório, que brilhantemente trouxeram à luz da ciência o que estava destinado ao campo intuitivo: a Natureza Humana (22). A partir desses dois modelos teóricos, reunimos recursos para a construção de um pensamento unicista psicossomático que defende o Ser Humano como Ser psicossomático por natureza e entende a importância da multidisciplinaridade no aprimoramento terapêutico e seu objetivo: alívio do sofrimento e cura da dor.

 

Índice

 

(1) É possível que o homem pré-histórico tenha começado a fazer uma distinção entre o que era e que não era visível e explicável.

”Durante milhares de anos, as duas formas (racional e espiritual) de abordagem coexistiram lado a lado, num estado de relativa trégua, mas, à medida que as técnicas de controle da natureza do homem tornaram-se mais eficientes, o mundo dos espíritos foi forçado a redefinir seu papel...”

”Lentamente, um conjunto de conhecimentos práticos seria reunido, usado e desenvolvido à luz da experiência, de tal forma que, gradualmente, o sacerdote (mago) veio a se tornar o primeiro de uma linhagem de investigadores experimentais e o ancestral remoto do cientista moderno.”

Livro: ”História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge” Vol. 1 1987 – pg 13, ed. Zahar; autora: Colin Ronan.

 

(2) O termo psicossomático foi cunhado em 1818 pelo médico alemão Heinroth (1773 – 1843) para caracterizar um tipo de insônia. O conceito cientifico foi criado em 1930 pela primeira Escola de Medicina Psicossomática (Chicago – EUA).

Livro: ”A Psicossomática do Adulto” 1993 – pg 3 a 5, ed. Artes Médicas; autor: Pierre Marty.         

Um conceito cientifico relaciona-se a um sistema de correlação lógica de fatos que, juntos, consolidam uma hipótese ou o corpo de uma teoria sólida... e ao mesmo tempo aberta para deixar espaço a desenvolvimentos e ajustamentos, à luz de descobertas mais recentes.

Livro: ”História Ilustra da Ciência da Universidade de Cambridge” Vol I, 1957 – pg 12, ed. Zahar; autora: Colin Ronan

 

(3) A mitologia grega registrada por Homero e Hesíodo (IX a.c) traduz o pensamento original da civilização ocidental. Dele herdamos: a literatura, o teatro (comédia e tragédia), a dialética, o tratado filosófico, o tratado científico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica...

”O que há de imperecível na fase heróica da existência humana: o seu sentimento universal do destino e verdade, permanente na vida.”

Livro: ”Paidéia: A Formação do Homem Grego” 1995 – pg 64, ed. Martins Fontes; autor: Werner Jaeger.

 

(4) Para os gregos é muito difícil fazer uma separação entre somatikós e psique... Ao morrer, o homem, em seu último suspiro, permite que psique (sopro) afaste-se do corpo e transforme-se em eidolon (com um corpo insubstancial). Contudo, se requisitada, psique pode voltar e ocupar outro corpo humano (ensomatósis = reencarnação) ou ocupar outro soma (humano, animal, vegetal) por pensamento (mentempsyknosis).

Livro: ”Dicionário Mítico-Etimológico” Vol. II 1997 – pg 335, ed. Vozes; autor: Junito Brandão.

 

(5) Deus Apolo é aquele que possui o olhar penetrante e poder adivinhatório do mal oculto – diagnóstico, e o saber sobre o futuro desenrolar da enfermidade - prognóstico. Asclépio é filho de Apolo com a mortal Corônis. Órfão de mãe, foi criado pelo centauro Quirão (meio homem meio cavalo) que lhe transmitiu conhecimentos médicos. Por fazer muitos progressos, chegando a ressuscitar mortos, Asclépio incomoda Zeus (Deus do Olimpo) que lhe fulmina com raios. Como era herói, Asclépio foi divinizado e no local de sua morte ergueu-se um templo com seu nome, que, séculos depois, veio a tornar-se o primeiro hospital.

Livro: ”Dicionário Mítico-Etimológico” Vol I 1997 – pg 127, ed. Vozes; autor: Junito Brandão.

             

(6) Sócrates (470 – 399 a.c) considerado o ”pai da filosofia ocidental”, desloca a reflexão do cosmos para o homem e define, pela primeira vez, o Universo como objeto da ciência e não território divino... Segundo ele, o objetivo da medicina é cuidar do homem interior através da dialética e da maiêutica, pois pharmakon (remédio) é nocivo ao homem, por não pertencer à sua natureza.

Platão (427 -347 a.c) discípulo de Sócrates, fundador da Academia considerada a primeira universidade. Postula que saúde e doença estão associadas à alma (psique). Criou a categoria dualista de alma: uma racional, localizada no cérebro, outra irracional, localizada no thymos (tórax), que rege as paixões. O desequilíbrio das almas gera doenças. Cuidar da saúde é aproximar-se do mundo das idéias.

Livro: ”A Cura da Mente – A História da Psiquiatria da Antiguidade até o Presente” 1999 – pg 25, ed. Artes Médicas; autor: Michael Stone.

Aristóteles (342- 322 a.c) discípulo de Platão e fundador do Liceu, prefere investigar o mundo real a especular sobre a natureza. E o mundo real encontra-se na razão. A saúde é fruto dessa mais elevada faculdade do homem. O ódio é o sangue fervendo em torno do coração o que gera vapores no cérebro e provoca a doença. (Esta teoria dos vapores perdurou até o século XII).

Livro: ”A Cura da Mente – A História da Psiquiatria da Antiguidade até o Presente,” 1999 – pg 26, ed. Artes Médicas; autor: Michael Stone.

 

(7) Curando os doentes, separando-os da doença, o médico procede como escultor que extrai da pedra a imagem do homem... Ele é, segundo Hipócrates um dos artesãos que constroem um humanismo que outros forjam nas leis, na filosofia, na arte...

Livro: ”A Ordem Médica – Poder e Impotência no Discurso Médico”, 1982 – pg 73, ed. Brasiliense; autor: J. Claureul.

 

(8) A teoria hipocrática dos Quatro Humores permitiu descrever, durante séculos, muitos sintomas de doenças, entre elas a melancolia: o ânimo entristecido, sentimento de abismo infinito, extinção do desejo e da fala, seguida de exaltação, nostalgia e luto. Era, assim, associada à bile negra, ao lado dos outros três humores:

”O sangue imita o ar, aumenta na primavera e impera na infância

A bile amarela imita o fogo, aumenta no verão e impera na adolescência               A bile negra imita a terra, aumenta no inverno e reina na velhice.”

A partir do fim da Idade Média o termo melancolia tornou-se sinônimo de uma tristeza sem causa e a Teoria Humoral foi substituída progressivamente por uma causalidade existencial. Com a instauração do saber psiquiátrico (século XIX) foi integrada por Kraepelin (1856 – 1926) à loucura maníaco-depressiva fundindo-se à psicose maníaco-depressiva. Sigmund Freud (1856 – 1939), pouco interessado na psiquiatrização do estado melancólico, revigorou a antiga definição hipocrática, considerando-o não como doença, mas um destino subjetivo: o ego se identifica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se perder...

Livro: ”Dicionário da Psicanálise” 1997 – pg 505 a 507, ed. Zahar; autores: Elisabeth Roudinesco e Michael Plon.

 

(9) ”Os conhecimentos árabes dos metais aumentaram a aproximação entre medicina e a alquimia. Assim o receituário europeu foi acrescido de fórmulas metálicas.

Livro: ”Mediar, Medicar, Remediar – Aspectos da Terapêutica na Medicina Ocidental”, 1998 – pg 38, ed. UERJ; autora: Jane Sayd.

 

(10) Os santos se encarregavam do corpo que adoecia pelo pecado: Santa Blaise, da garganta, Santa Brígida, dos olhos, São Cosme e Damião, das cirurgias... Assim a religião sufocou a medicina por mais 15 séculos.

Livro: ”A Assustadora História da Medicina”, 2004 – pg 23 e 24, ed. Prestígio; autor: Richard Gordon.

 

(11)... ”o paradigma do médico renascentista é Paracelso (1493 – 1541)... personagem típico do seu tempo, aliava enorme curiosidade e interesse em adquirir conhecimentos a um misticismo igualmente intenso. Instruiu-se junto às feiticeiras de sua época, com o que acrescentou novos medicamentos às matérias médicas correntes... Substituiu a Teoria dos Quatro Humores por quatro bases da medicina: alquimia, astrologia, Deus e natureza. O organismo humano funciona em bases alquímicas, sendo a doença uma transformação indesejável. Sua sustentação para escolha terapêutica era a teoria das assinaturas, um princípio segundo o qual a natureza fornece sinais do valor terapêutico das ervas, sinais analógicos... Assim, a noz com olhos desenhados na casca é bom para doenças oftálmicas, ou a folha com feitio de rim, é terapêutica para doenças renais... Também apresentava a sua ”pílula eterna”: um comprimido de antimônio que era ingerido e recuperado na fezes, repetidamente, com efeitos alquímicos no organismo.”

Livro: ”Mediar, Medicar, Remediar – Aspectos da Terapêutica na Medicina Ocidental”, 1998 – pg 46, ed. UERJ; autora: Jane Sayd.

 

(12)Alois Alzheimer (1864 – 1910) neurologista alemão encontrou anormalidades histológicas em certas demências senis.

Robert Koch (1843 – (1910), clínico geral alemão, observou a tendência de um bacilo em formar cadeias infindáveis. Provou que um micróbio específico pode causar uma doença específica e encontrou o Bacilo da Tuberculose – 1884. Foi contemporâneo de muitos médicos e químicos, como Pasteur (1822 – 1895) – francês que descobriu ser ”a coisa” causadora das doenças organismos microscópicos vivos.(pg 40 a 43) Criou a pasteurização – método de uso do calor para matar micróbios.

Falópio (1523 – 1562) descobridor da trompa na pelve feminina.

Livro: ”A Assustadora História da Medicina”, 2004 – pg 28, 40 a 43, ed. Prestígio; autor: Richard Gordon.

 

(13)Na psiquiatria dos anos 1700, uma confiança maior foi depositada na observação direta e discussão racional. A superstição e o dogmatismo da Igreja perdiam força especialmente naqueles países mais influenciados pela Reforma (religiosa): Alemanha, Países Baixos e Inglaterra; teorias neuroanatômicas, embora primitivas, surgiam, assim, como teorias psicológicas com relação às ”paixões”. O dualismo cartesiano (a noção de que o espírito era distinto do corpo) começa a ser afastado. A noção de alma começa a ser redefinida como força vital tanto ligada à medicina mecanicista quanto à medicina vitalista. Influenciada pela descoberta da eletricidade, psique associa-se a ”energia” na concepção romântica alemã (Heinroth, Reil, e mais tarde Freud); encontra sua sede na mente humana e explica as emoções. Obs: Johan Reil (1759 – 1813) – cunhou o termo psiquiatria – especialidade de cura da mente; Herman Emminghaus (1845 – 1904) criou o termo psicopatologia; Rudolf Goeckel (1590) cunhou o termo psicologia relacionado a formas de melhorar a humanidade, à partir daí ramificou-se: psicologia cognitiva comportamental (mais ou menos em 1960), psicologia empírica (1732), racional (1734)...

Livro: ”A Cura da Mente – A História da Psiquiatria da Antiguidade até o Presente”, 1999 – pg 63 a 286, ed. Artes Médicas; autor: Michael Stone.

 

(14)”quanto ao primeiro ano na universidade”, anunciou (Freud) a seu amigo Silverstein, ”vou dedicá-lo inteiramente ao estudo de temas humanísticos, que não têm absolutamente nada a ver com minha futura profissão, mas que não serão inúteis para mim. ”

Livro: ”Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo”, 1989 – pg 43, ed. Companhia das Teorias; autor: Peter Gay.

 

(15)Freud julgava o tratamento convencional da neurastenia – a eletroterapia, que também experimentou em seus pacientes – muito insatisfatória... e no começo dos anos 1890 ”abandonei o aparato elétrico com um evidente suspiro de alívio”.

Livro: ”Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo”, 1989 – pg 73, ed. Companhia das Teorias; autor: Peter Gay.

 

(16)Charcot resgatava a hipnose das mãos dos curandeiros e charlatões, para aplicá-la de modo conseqüente no tratamento de doenças mentais. A hipnose não era uma novidade absoluta para Freud desde 1885. Como estudante de medicina, ele já havia se convencido de que, apesar de sua fama desagradável, o estado hipnótico era um fenômeno autêntico... Mais tarde, depois de uma sessão de hipnose uma paciente lançou seus braços ao pescoço de quem a curara. Essa experiência embaraçosa, rememorou Freud, deu-lhe uma pista para o ”elemento místico” oculto na hipnose... ele identificaria como um exemplo de transferência e viria a empregar como poderoso instrumento na técnica psicanalítica.

Livro: ”Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo”, 1989 – pg 61, ed. Companhia das Teorias; autor: Peter Gay.

 

(17)A lógica da dissolução da hipnose na sugestão conduziu, Bernheim a afirmar que os efeitos obtidos pelo hipnotismo podiam também ser obtidos por uma sugestão em estado de vigília, que logo chamaria de psicoterapia.

Freud, adotou de Charcot, a nova conceituação da histeria, e de Bernheim o princípio de uma terapia pela palavra.

Livro: ”Dicionário da Psicanálise”, 1997 – pg 61 e 62, ed. Zahar; autores: Elisabeth Roudinesco e Michael Plon.

 

(18)A causa da histeria é um acontecimento traumático e o afeto ligado ao acontecimento é separado de sua idéia original que se ”desloca” para um segundo grupo psíquico (não-consciente) e sua carga afetiva é ”descarregada” no corpo. A técnica de ab-reação visa devolver a carga afetiva colocada no corpo à sua idéia original, provocando uma catarse (descarga emocional) através da lembrança.

A partir desses estudos Freud vem a conceituar defesa, repressão, transferência, libido, etc...

Livro: ”Dicionário da Psicanálise”, 1997 – pg 3, ed. Zahar; autores: Elisabeth Roudinesco e Michael Plon.

 

(19)... ”A nos atermos a essas definições (econômicas, topográficas e dinâmicas) agrupamos sobre o rótulo de Metapsicologia grande parte da obra freudiana...: o projeto para uma psicologia científica, o sétimo capítulo de A interpretação dos sonhos, Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, Sobre o narcisismo – uma introdução, Para mais além do princípio do prazer, O Eu e o Isso, Suplemento metapsicológico dos sonhos e Luto e melancolia”

Livro: ”Dicionário de Psicanálise”, 1997 – pg 413 a 511, ed. Zahar; autores: Elisabeth Roudinesco e Michael Pilon.

 

(20)... ”A tendência mais atual é abandonar os conceitos de psicogênese ou somatogênese e encarar o fenômeno doença de forma sempre global, gestáltica e em função da pessoa que o apresenta, sua forma especial de viver em e com o mundo, de forma transpessoal como nos ensina Perestrello.”

Livro: ”Concepção Psicossomática: Visão Atual”, 1994 – pg 18, ed. Tempo Brasileiro; autor: Julio de Mello Filho.

 

(21) Segundo Marty, são os instintos e as pulsões que representam a economia psicossomática do ser humano.

... ”Em qualquer fase da vida as funções, estejam isoladas umas das outras ou organizadas entre si... não podem integrar senão uma quantidade limitada de excitações instintuais ou pulsionais. Quando essa quantidade de excitações é limitada, os impulsos dinâmicos em jogo contribuem para os fenômenos da construção progressiva do desenvolvimento individual (agrupamentos e hierarquizações funcionais sucessivos) e das ligações interfuncionais necessárias ao equilíbrio homeostático (coordenações somáticas, psicossomáticas e psíquicas). Vemos aqui os sinais dos Instintos e das Pulsões de vida, as pulsões correspondendo aos níveis psíquicos de excitação. Quando as excitações persistem em quantidade demasiado grande, a função ou os sistemas funcionais excessivamente excitados se desorganizam (isolamento e anarquização funcionais). Aqui, vemos o sinal dos Instintos e das Pulsões de Morte.”

Livro: ”A Psicossomática do Adulto”, 1993 – pg 3 a 5, ed. Artes Médicas; autor: Pierre Marty.

 

(22)... ”se nossa visão capta ondas eletromagnéticas e nossa audição ondas mecânicas e, ainda, se os neurônios programam uma corrente elétrica desencadeando os neurotransmissores e, como já descrevemos anteriormente, se tudo o que captamos através de nossos receptores percorre o nosso corpo através de padrões de pulso, o nossos organismo é um organismo em sua essência vibratória. (pg 106)

... ”Assim podemos compreender que, se a matéria em sua estrutura é atômica e se o interior atômico em sua essência é um sistema vibratório, o nosso universo é em sua essência um universo vibratório.” (pg 107)

... ”somos um sistema vibratório. O macromicro é um sistema vibratório. Como estamos verificando, em qualquer nível macroscópico e microscópico, estamos sempre lidando com situações dinâmicas que interagem em movimentos vibratórios.

     O macromicro é um complexo vibratório. Cada ser humano, um complexo macromicro, irá vibrar de acordo com sua freqüência natural.”(pg 115)

Livro: ”Macromicro: A Ciência do Sentir”, 1998, ed. Mauad; autora: Maria Beatriz Breves Ramos.

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

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