Quando há “pendências” emocionais nas situações de conflito, particularmente nos divórcios, os envolvidos não reagem apenas com raiva, mas também com grande resistência a ter um diálogo, a entrar em qualquer acordo, por mais simples que seja, como uma maneira de revidar o causador da dor, seja ela qual for. Esse é quase sempre o outro parceiro. O que não é levado em conta, na maioria das vezes, é a violência da agonia do litígio para os filhos, que se transformam nos troféus da batalha.

 

Para poder dar lugar ao diálogo colaborativo é necessário permitir e legitimar a presença do desamor, das mágoas, dos ressentimentos, do ódio apaixonado, através dos discursos inflamados que implica num esvaziamento das paixões. Ter um interlocutor com quem possa expor seus pontos de vista, suas versões da história vivida, possibilita dar outra reordenação aos sentimentos. Aceitar o convite para uma postura colaborativa estabelece condições para ouvir e ser ouvido pelo “adversário/inimigo” e resgatar a consciência da autoria e co-autoria, criando soluções que visem o bem estar dos filhos. 

 

A violência se faz presente nas suas diversas formas, mas há um tipo que se manifesta nos litígios a que os filhos estão sempre submetidos que é a violência da palavra. Os filhos, em qualquer idade, ficam subjugados à fala dura e cortante entre os adultos, pelo tom áspero, pelos adjetivos desabonadores, pela desautorização e/ou desqualificação dos atos do pai ou da mãe. O outro é sempre apresentado como um perturbador da ordem, o causador de todos os males, dos desequilíbrios, o inadequado. Tudo isto gera muita angústia nos filhos, por estarem sendo continuamente convidados a ver um dos genitores como pessoa sem valor, interferindo na formação de seu próprio juízo sobre a pessoa da mãe ou do pai, consequentemente dificultando seu próprio juízo sobre si mesmo.

 

Restabelecer a comunicação, os diálogos produtivos, é também poder redefinir lugares e fatos. Alguns pais/mães se divorciam com os filhos. Necessário se faz libertar/liberá-los de um divorcio que não lhes pertence. E ter claro, que a separação é entre o casal conjugal e que pai e mãe não precisam e não devem se divorciar, para o bem e saúde dos filhos, que continuarão sendo sempre um matrimônio afetivo comum.

 

Há uma maior dificuldade e um aumento de resistência em litígios onde algum dos envolvidos não tem a mesma simetria de relação com as crianças/adolescentes. Estes se mostram mais inadequados e raivosos. A dificuldade de acesso daquele que não detém a convivência contínua é extremamente desestruturante, tanto para esse como para os filhos. Os sentimentos de perda e abandono são maximizados.

 

Os pais, quando estão para iniciar essa guerra, ou no meio dela, se põem surdos, como se vivendo aprisionados em seus “dramas”, e nem sempre escolhem representantes legais que se preocupem com o bem estar dos menores. A cultura do litígio, a naturalização das práticas adversariais e o desconhecimento de seus efeitos colaterais, fazem com que alguns profissionais facilitem o uso dos filhos como armas, contribuindo para inauguração de novas mágoas, ampliando o número de feridas e implicados no conflito (pai x mãe x filhos x...). Os cortes relacionais, como um divórcio litigioso, são progressivos e se propagam por outras relações familiares, como por exemplo, entre irmãos, avós, tios, etc.

 

Um trabalho específico com famílias em situação litigiosa, já com incursões jurídicas ou não, tem como propósito liberar crianças e ou adolescentes dessa situação aprisionante e adoecedora, bem como auxiliar os adultos envolvidos a resgatarem seu poder de decisão e de criação de soluções que visem o bem estar de todos, principalmente dos filhos. Estarão em pleno exercício da vontade, buscando desenvolver posturas colaborativas e de confiança mútua, exercitando a discriminação entre o que é pessoal e o que diz respeito a uma situação que lhes é comum.

 

O divórcio nem sempre deixa cicatrizes profundas e irrecuperáveis nos filhos. Essa experiência poderá ser mais ou menos desestruturante e adoecedora dependendo de como os adultos envolvidos lidam com os seus sentimentos e administram a situação, incluindo ou não os filhos num contexto que diz respeito unicamente a marido e mulher.

 

Um filho é o elemento fundante de uma família e passa a ser seu bem comum indissolúvel. Como não existe ex-pai, ex-mãe ou ex-filho, um casal conjugal pode se separar, mas a família continuará existindo, tenha ela uma relação harmônica entre seus integrantes ou não. Pais podem se oferecer como recurso para que crianças e adolescentes aprendam a conviver de forma harmônica e amorosa com as diferenças, mesmo em situações em que o amor não mais exista, mas que pode ser transformado em respeito e colaboração.

 

Marília Lopes Modesto

 

Descaminhos de Uma Guerra Particular

Marília Lopes Modesto

 

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