Caixa de texto: PSICOSSOMÁTICA ATUAL: CONCEPÇÃO CLÍNICA
Uma breve introdução
Mirian Cézar Carneiro da Cunha
Caixa de texto: O conhecimento psicossomático leva em conta todas as áreas do saber que contribuem no resgate e manutenção da Natureza Humana. Contudo, em sua concepção inicial, nasce na clínica e nela aprimora-se.

A psicossomática clínica -  nomeada Psicossomática Psicanalítica – resulta da evolução teórica e técnica da psicanálise, a partir de estudos de caso de pacientes cujos sintomas, nem a medicina, nem a psicanálise tradicional, dão conta. A princípio, a clínica psicossomática surgiu como recurso terapêutico alternativo para pacientes da clínica médica (Medicina Psicossomática). 

A primeira Escola de Medicina Psicossomática (Chicago, EUA, 1939) foi constituída por médicos-psicanalistas, instigados por certas doenças (hipertensão arterial. úlceras, asma, colites...) com determinantes emocionais em suas etiologias.

A evolução desses estudos, que visa priorizar a causa das doenças, distingue dois grupos significativos: os que entendem que toda doença é psicossomática e origina-se no organismo (somatogênese) e o grupo que defende toda doença ser originada no psiquismo (psicogênese). Porém a “volatilidade” dos sintomas, suas oscilações psíquicas e somáticas, derrubam a dissociação teórica mente-corpo.

No Brasil, a medicina psicossomática foi “inaugurada” abrangendo fatores psico-sócio-somáticos (“Medicina da Pessoa” - Danilo Perestrello – 1958) entendendo que toda enfermidade vai conter o aspecto total da pessoa, “sua forma de viver em e com o mundo que a cerca... Neste sentido a enfermidade vai expressar um tropeço existencial, uma disfunção no processo de viver” (1).

Na França surge uma instituição (IPSO - Instituto de Psicossomática de Paris – 1948) formada por psicanalistas interessados no fenômeno psicossomático e, a partir de sintomas clínicos, aprofundam conhecimentos metapsicológicos que contribuam no atendimento de pacientes que não beneficiam-se com a técnica clássica psicanalítica (2). Esses pacientes apresentam uma indisponibilidade interna (relativa aos insights promovidos pelo trabalho psicanalítico de regressão e superação de resistências), necessária para elaboração de seus transtornos psíquicos (3). Esses sintomas revelam o corpo expressando e/ou “ocupando o lugar” do psíquico (no lugar de conflito psíquico, transtorno orgânico) ou vice-versa (quando o psíquico se “coloca no lugar” do orgânico, ex.:membro amputado sentido como não amputado). Outro exemplo de fenômeno psicossomático refere-se à “aliança psicossomática”, presente na dor crônica , quando, apesar do uso de inibidores bioquímicos (medicamento) e outros recursos de tratamento orgânico, esse sintoma (dor), só é realmente superado, após a descoberta e tratamento, também, da causa psíquica .
O caso da “alternância psicossomática ocorre quando a enfermidade de um sistema, “salvaguarda” o outro ( ex.:uma paciente em surto, sai despida na neve e não tem nenhum transtorno físico, ou casos em que uma doença orgânica, gera, no paciente com transtornos psíquicos, o resgate da capacidade de pensar e agir).

Pacientes com excesso (casos de hipocondria, neurose de angústia, síndrome do pânico), ou distanciamento inadequado de “atenção” a seus sintomas (por falta de cuidados adequados - efetivadores de transtornos cardíacos, respiratórios, digestivos, etc.), são expressões de fenômenos psicossomáticos, assim como, reações colaterais de medicamentos, distúrbios pré e/ou pós-cirúrgicos, etc.- associados a desequilíbrios defensivos.

O atendimento psicossomático psicanalítico, portanto, é um processo psicoterápico também auxiliar nos tratamentos de outras especialidades da área da Saúde, por estar qualificado  a tratar  os componentes das enfermidades, ligados a esta área:  os sintomas e a etiologia, (ligada a eles), dos fenômenos psicossomáticos (depressão essencial e / ou pensamento operatório) (4).

A metodologia do atendimento abrange entrevista inicial (avaliação), atendimento (normalmente uma sessão por semana) e dependendo do caso (pacientes hospitalizados, homecare, pacientes que não assumam a responsabilidade financeira do atendimento, pacientes afetivo-dependentes) atendimento familiar, de acordo com a necessidade.

Entendemos que o grande avanço do conhecimento psicossomático, com nítido resultado satisfatório, na área clínica, deve-se à adesão cada vez maior, de profissionais da área de saúde à concepção psicossomática e também, pelas contribuições de pesquisas das áreas de antropologia, sociologia, neurociência, ecologia, física, etc... Consagrando assim o seu construto que afirma que “todo ser humano, adoecido ou não, é psicossomático” (5).

Portanto, trabalhar com a concepção psicossomática possibilita entender melhor, adversidades contemporâneas, contribuindo para o fortalecimento e resgate não só da saúde, mas da própria Natureza Humana.
                                                                 
Referências bibliográficas:

(1)  MELLO FILHO, JULIO – “A concepção psicossomática: pppp visão atual” – 1994 – RJ – ed. Tempo Brasileiro
(2)   MARTY,  PIERRE – “A psicossomática do adulto” 
        1993 – Porto Alegre – ed. Artes Médicas
(3)   FREUD, SIGMUND – “Construções em Análise”
        1937 – S.E. – Vol. XXIII – RJ – ed. Imago
(4)--SMADJA, CLAUDE –“O pensamento operatório na     pppppráticappsicossomática”- (trad. Admar Horn) - Boletim ppppda Sociedade de Paris  
      SMADJA, CLAUDE - “O enigma da dor na depressão   ppppessencial”-(trad. Lucília Hess)-1999-RevuepFrançaise ppppdepPsychosomatique
(5) BREVES RAMOS, MARIA BEATRIZ – “A fronteira do       pppppadoecer: o sentir e a psicossomática” . 2005– RJ -ed. Mauad

 
MÍRIAN CÉZAR CARNEIRO DA CUNHA*

*- Psicóloga (PUC-RJ / CRP 05.5427)
- Especialista em atendimento psicoterápico-psicoanalítico de família e casal (USU)
 -Formanda pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)
   filiada da International Psychoanalytic Association (IPA)
- Membro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, RJ (ABMP-RJ)
- Membro fundadora e coordenadora do departamento de Psicossomática do Centro de Pesquisa e               
  Estudos da Ciência do Sentir (CPECS)

  mirianccunha@hotmail.com
  www.mccarneirodacunha.cpecs.org

 

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