Caixa de texto: PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA
Com uma Ilustração Clínica
Mirian Cézar Carneiro da Cunha
Caixa de texto:  
Dentro de uma visão atual, a multidisciplinaridade, e suas Escolas da área de Saúde, tem sido utilizada como um recurso, cada vez mais presente, nas administrações terapêuticas, para melhor acolher as demandas dos pacientes.
 
A experiência clínica tem revelado e comprovado desmistificações de teorias criadas pela ciência, até o século passado. Entre elas a de que o corpo e o psíquico, são sistemas separados, e que os tratamentos devem ater-se a cada sistema. Hoje resgata-se uma visão mais integralizada do corpo (separado pelas especialidades médicas), que juntamente com seu sistema psíquico, e o meio em que vive o paciente, explicam  melhor o percurso das doenças e a recuperação da saúde. O aspecto emocional, até então, considerado, muitas vezes perturbador, do processo terapêutico, também passa a ocupar um “lugar” de destaque na clínica. Ao privilegiar o paciente como um TODO, onde o sistema psicológico (e as emoções vinculadas a ele), interage contínuamente com o sistema orgânico e com o mundo externo (vida familiar, social, profissional, etc.), os profissionais da área da saúde tem (muitas vezes sem se dar conta) resgatado a CONCEPÇÃO PSICOSSOMÁTICA (hipocrática) e obtido resultados mais satisfatórios relacionados às queixas dos pacientes, como também, em sua prática clínica. Neste sentido, o auxílio terapêutico do intercâmbio das especialidades, também tem contribuído para um melhor prognóstico e “cura” das enfermidades. E é na área de interseção dos aspectos físicos (orgânicos),emocionais (psicológicos),e sociais, que a psicossomática psicanalítica vai atuar. O tratamento PSICOSSOMÁTICO PSICANALÌTICO, portanto, é um processo psicoterápico que possibilita a “re-inscrição” do eu, no mundo interno e externo.
 
Conseqüentemente, promove um “re-enlace” com o conceito de doença e saúde (aspectos simbólicos) para cada paciente, contribuindo como auxiliar, juntamente com todas as especialidades que se fizerem necessárias, para o alívio do sofrimento e resgate da saúde.
 
SOBRE UM ATENDIMENTO: UM BREVE RESUMO DE UM CASO CLÍNICO
 
Certo dia, recebo em meu consultório uma paciente que chamarei de   ”MARIA”. Percebo, de imediato, que ela apresenta algum transtorno grave, frente a sua aparência: “pele e osso”.
 
Afirma que quem me indicara foi sua ginecologista. Diz que, apesar de gostar muito dela, não confiava mais em médicos e muito menos em psicólogos. Não acreditava que eu, e esse “tratamento” de “falas”, a pudesse ajudar. Porém, apesar de sua desconfiança, MARIA consegue “falar”... Após me dar uma “aula” de farmacologia e procedimentos invasivos de exames e “erros médicos”,  fala de si ....
 
Segundo ela, era muito bonita e tinha uma vida estável (marido, filha, dona de casa...), até a morte de sua mãe, com quem teve uma “péssima relação”.  Logo após essa perda “descobriu” que o marido tinha uma amante de longa data. MARIA diz que não agüentou e pôs o marido para fora de casa, segundo ela “um merda”....Após essas perdas, apresenta um quadro de diarréia que a levou a fazer muitos exames, até chegar ao diagnóstico de Síndrome do Colo Irritável, o que a fez perder peso e a ter medo de sair a rua, pois “a qualquer momento podia ter diarréia”... Durante sua fala percebo que MARIA caminha também para um quadro de Síndrome de Pânico, com nítidos sinais de transtornos físicos (taquicardias, sudorese, etc.) ao sair de casa, associados a “fantasmas de morte” (a morte da mãe e do casamento), num auto-ataque constante por causa das culpas que carregava e não sabia. Culpava-se por não ter podido corresponder às exigências da mãe, enquanto filha, e por não ter podido corresponder às exigências “da mulher”, no casamento.
Segundo ela, não interessa “as questões do sexo”, casou para sair de casa.  Não sente prazer no ato sexual. Noto que suas cobranças são de ordem social (função da filha, função da esposa), muito comum nas desordens psicossomáticas.
 
As suas perdas foram vivenciadas como verdadeiros “abalos sísmicos”, em seu mundo interno, trazendo à tona, transtornos, que há muito escondia.  Seu eu (self), não suportou tamanha “invasão”  e para manter a homeostase, recorreu ao corpo.
 
A história de MARIA, não difere de tantas outras, onde o corpo, e seu aliado psíquico, tenta manter-se sob, muitas vezes, mínimas condições de sobrevivência, para dar conta do que foi ou é sentido como insuportável.
 
MARIA, não perdia sessões e cooperava bastante, e de imediato recupera sua auto-estima, afirmando sentir-se uma “Gisele” (top model)), arranjo que fez para aceitar-se magra... Num segundo momento, passa a acreditar mais em si mesma, o que repercutiu na sua vida, especialmente na sua busca de melhora e confiança nos médicos, respondendo melhor aos tratamentos clínicos. Num terceiro momento, MARIA se dá conta que recuperou o peso e a saúde – MOMENTO DE ALTA.
 
CONCLUSÃO
 
Aqui transcrevi algumas idéias sobre a tendência contemporânea de resgate da concepção psicossomática e sua importância, para o atendimento do paciente. Introduzí um pouco da história de MARIA, apenas para ilustrar o percurso de um atendimento psicossomático psicanalítico.  Contudo, sei que, tais temas merecem muito mais espaço teórico e principalmente clínico, pois, “esse caminhar para dentro de si mesmo” se dá pouco a pouco, e envolve muitas questões. Não posso deixar de enfatizar que todo sintoma revela uma defesa, mesmo que enganadora, necessária, para a manutenção da homeostase psicossomática, abalada pela enfermidade. Esta constatação nos faz entender que toda doença contém aspectos psíquico e somáticos e levar em conta, não só a doença, mas o doente. A nos ajudar evitar os desgastes enfrentados no passado na relação profissional-paciente. A impedir a troca grave do rigor pela rigidez, teórico-técnica. E, uma das conseqüências importante desse movimento de resgate da concepção psicossomática, é o “resgate da saúde, na área da Saúde”.
 
 


MÍRIAN CÉZAR CARNEIRO DA CUNHA*

*- Psicóloga (PUC-RJ / CRP 05.5427)
- Especialista em atendimento psicoterápico-psicoanalítico de família e casal (USU)
 -Formanda pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)
   filiada da International Psychoanalytic Association (IPA)
- Membro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, RJ (ABMP-RJ)
- Membro fundadora e coordenadora do departamento de Psicossomática do Centro de Pesquisa e               
  Estudos da Ciência do Sentir (CPECS)

  mirianccunha@hotmail.com
  www.mccarneirodacunha.cpecs.org

 

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