O Corpo como Registro de uma Nova Linguagem
Maria Lucia Pilla
(Apresentado na VII Jornada de Psicanálise da Sociedade de Psicanálise da Cidade do RJ)
publicado na Revista da SPCRJ/nov/04)

             I - Introdução

Em 20 de junho de 2004  o Caderno Família do jornal O Globo publicou artigo intitulado Freud tinha razão. O artigo  causou certo frisson no mundo psicanalítico, uma vez que  se referia à comprovação da teoria freudiana pela neurociência. No mesmo mês, um artigo mais amplo, mas com o mesmo tema, foi publicado pela revista Scientific American no. 25, com o título Freud está de volta e o subtítulo Neurocientistas descobrem que descrições biológicas do cérebro funcionam melhor se combinadas às teorias delineadas pelo pensador austríaco há um século.

             Achei tudo isto muito interessante, uma vez que já há algum tempo venho opondo-me a um posicionamento bastante freqüente entre os psicanalistas, de considerarem haver uma oposição e até uma incompatibilidade entre neurociência e psicanálise, sendo portanto impossível uma colaboração entre ambas. Tanto é assim que no 2o. Encontro dos Estados Gerais da Psicanálise, ocorrido no Rio de Janeiro em 2003, todos os subtemas e argumentos relativos ao tema Psicanálise e Neurociência apontavam claramente nesta direção. Para mim, no entanto,  tal posicionamento implicava na não consideração de uma importante vertente da neurociência, claramente compatível com a psicanálise.

             O citado artigo da Scientific American diz: Grupos interdisciplinares reunindo os campos antes distantes e muitas vezes contrários da neurociência e da psicanálise se formaram em praticamente todas as grandes cidades do mundo. Essas redes, por sua vez, uniram-se na Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, que organiza um congresso anual e publica a bem sucedida revista Neuro-Psychoanalysis. E no artigo do Globo são apresentadas as seguintes falas de Joel Birman: Alguns psicanalistas devem perceber que, sem uma linguagem afetiva, que dê acesso à memória corporal, não há tratamento psicanalítico.    Uma parcela significativa da psicanálise esqueceu que o psíquico é corporal. Foi por isso que as chamadas terapias corporais, como a bioenergética e as reichianas, ampliaram-se tanto em todo mundo, nas últimas décadas.

             Como estas são idéias que defendo já há algum tempo e em relação às quais venho coligindo material significativo, animei-me a apresentá-las em nossa Jornada, uma vez que finalmente parecem estar sendo levadas em consideração no universo psicanalítico.

II - O Corpo na Psicanálise e o Paradigma que o sustenta

             O corpo com o qual lidamos em psicanálise é, em princípio, o corpo representado ou erógeno  - sendo este corpo considerado como diferente do corpo biológico, que estaria fora do campo da psicanálise.

Esta concepção fundamenta-se na teoria pulsional, uma vez que a pulsão - “conceito limítrofe entre o psíquico e o somático” (1) - foi a via que Freud nos deixou para inclusão do corpo na psicanálise: a pulsão - na verdade a pulsão sexual - com sua fonte somática é representada no psíquico por seu representante representativo e pelo afeto.

 Fica evidente que a teoria pulsional fundamenta-se em um paradigma que parte da separação entre corpo e mente - pois o próprio fato da  pulsão ser um conceito limítrofe entre o psíquico e o somático mostra que Freud parte de uma separação entre os dois, que necessita da pulsão como uma ponte de ligação.  E não poderia ser de outra forma - sendo Freud um médico, que iniciou sua carreira trabalhando no laboratório de fisiologia de Brucke, é inevitável que  sua obra tenha sofrido a influência do paradigma cartesiano-newtoniano, dominante nos meios científicos de seu tempo. Conseqüência disto foi o corpo dito biológico ter ficado excluído de uma prática clínica que passou a privilegiar quase que exclusivamente o verbal.

III - Um  Novo Corpo proposto por algumas vertentes da Neurociência e o Paradigma que o sustenta

             Algumas vertentes da neurociência apoiam-se em um tipo de paradigma que Thomas Kuhn denomina Paradigmas Emergentes (2) - que surgem rompendo com os paradigmas vigentes, quando os mesmos não dão mais conta da realidade com a qual a própria ciência vai entrando em contato.  Tais paradigmas vêm sendo postulados pela Física contemporânea, principalmente por Einstein e pela Física Quântica, que introduziram novos universos na Física - o “Mundo do muito veloz”  e o “Mundo do muito pequeno” (3). E também pela Transdisciplinaridade (4), movimento criado por Edgar Morin e outros, que propõe uma forma de interlocução e interação entre as várias disciplinas, que busca não só aquilo que as une, mas também aquilo que as atravessa, ou seja, que está entre elas e para além delas. Citaremos apenas três destes novos paradigmas, que interessam mais aos nossos propósitos:

1. A existência de diferentes dimensões da realidade - ou o paradigma da Multidimensionalidade: Einstein - ao estudar a velocidade da luz,  e a Física Quântica - ao estudar a estrutura subatômica, introduzem novos níveis de realidade na Física: o das grandes velocidades e o da estrutura quântica,  ambos diferentes do nível de realidade da estrutura macrofísica e das pequenas velocidades reconhecido e estudado pela física newtoniana. Surge assim o paradigma da Multidimensionalidade, segundo o qual uma realidade una em sua essência, manifesta-se em diferentes dimensões, ocorrendo assim a pluralidade dentro da unidade.

2. O pensamento holográfico: Propõe que não só o todo contêm as partes - mas também cada parte contêm o todo, conforme é demonstrado no holograma (foto realizada com a utilização do raio lazer).

3. A não separação entre observador e realidade: A dualidade onda-partícula mostra que a luz pode se comportar como onda ou como partícula, dependendo da natureza do experimento, ou seja, dependendo de como nós decidimos testar suas propriedades. Assim, no mundo quântico, não podemos mais separar o observador do observado, pois nele o observador tem um papel fundamental na determinação da natureza física do que está sendo observado. Em outras palavras, a realidade observada é resultado de nossa escolha (5).

             Partindo destes novos paradigmas, algumas vertentes da neurociência, como por ex. a atual psiconeuroimunologia, cunharam um novo termo, o corpomente, acabando assim com a separação cartesiana entre corpo e mente. Para estes neurocientistas o corpo é a mente ou a mente é o corpo “....  soma é psíquico e psíquico é soma - o psicossomático” (6).  Exporei brevemente, a seguir,  o pensamento de três autores sobre este tema - dois neurocientista e uma psicanalista.

1. James L. Oschman, PhD, especialista em Medicina Energética e autor de Energy Medicine - The Scientific Basis (7).

              Oschman  cria o conceito de Matriz Viva - formada pelo conjunto das matrizes nucleares (onde estão os genes), que estão dentro das matrizes celulares ou citoplasmáticas (arcabouços celulares) que por sua vez estão dentro das matrizes extracelulares (tecido conectivo). A Matriz Viva é então uma rede supra-molecular contínua e dinâmica que se encontra por todo corpo; ela não tem uma unidade fundamental ou aspecto central, nenhuma de suas partes é mais básica ou primária; as propriedades da rede inteira dependem das atividades integradas de todos seus componentes.

A principal característica da Matriz Viva é que ela é também uma rede de comunicação e informação. Esta rede envolve simultaneamente dois tipos de linguagem: a química, que propicia uma forma de comunicação importante mas lenta, e que é formada pêlos receptores peptídicos das membranas celulares e pêlos hormônios, transmissores e neurotransmissores; e a energética, muito mais rápida, que se subdivide em dois tipos - a elétrica, comunicação que ocorre nos nervos e músculos - e a eletrônica, dança de prótons e elétrons que ocorre na matriz extracelular e no espaço intracelular. Estas linguagens possibilitam que cada célula receba informações sobre as atividades que estão ocorrendo em todas as outras partes do corpo - para assim ajustar rápida e apropriadamente suas atividades às atividades do resto do sistema.

Ao falar de comunicações e informações que ocorrem química e energicamente no corpo, o autor está introduzindo o conceito de uma linguagem não simbólica, em permanente atividade. Fenômenos por nós observados e reconhecidos - como, por exemplo, a transmissão  inconsciente - que no entanto ainda permanecem em uma zona de mistério, poderiam, a meu ver,  ser melhor compreendidos através dos conceitos acima expostos. Um psicanalista capta muito mais do que seu paciente diz, e o faz não só interpretando o que está (re)velado em suas palavras, mas também através de todo seu corpo (e do corpo do cliente): pois se nossos ouvidos captam ondas sonoras que são interpretadas por nosso cérebro, nosso corpomente capta outros tipos de ondas, de freqüências mais sutis...uma transmissão inconsciente que pode, no entanto,  ser conscientizada. É através desta vias que um psicanalista também transmite muito mais do que suas palavras... e é também por elas que situações traumáticas vão sendo transmitidas de geração em geração, sem nunca terem sido simbolizadas e verbalizadas, permanecendo sempre inconscientes....

2. Candace Pert, PhD, bióloga molecular e neurocientista, autora de Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine (8).

             Pert nos fala da descoberta de um 2o. Sistema Nervoso de base química, mais antigo, mais básico e mais extenso que o Sistema Nervoso até então reconhecido (formado pela rede de neurônios dos Sistemas Nervosos Central e Periférico). Este 2o. Sistema Nervoso é formado por “receptores,” moléculas sensitivas localizadas na membrana celular, e por “ligadores”, moléculas que carregam informações. Quando um ligador se liga a um receptor, produz neste uma vibração através da qual a informação trazida pelo ligador é transmitida para dentro da célula, gerando nesta uma cadeia de reações bioquímicas (“linguagem” química + energética-eletrônica, segundo Oschman) Estes fenômenos que ocorrem a nível celular podem manifestar-se em emoções, pensamentos e comportamentos.

             Existem vários tipos de ligadores (como por ex. os neurotransmissores), mas 95% deles são peptídios que, ligados aos receptores correspondentes, formam o que Pert denomina “moléculas da emoção” ou “substâncias informativas”, que realizam assim a comunicação entre os vários sistemas do corpo, propiciando a integração entre suas estruturas e funções. Pert considera estes sistemas integrados como uma “rede psicossomática de informações”, ocorrendo simultaneamente no cérebro e no restante do corpo, e na qual um constante fluxo de informações se move através de células, órgãos e sistemas; ou seja, o substrato físico deste fluxo de informações é o corpo todo ( e não apenas o Sistema Nervoso Cérebro-espinhal); esta rede inteligente é o  corpomente, que organiza e dirige todos os sistemas. Inclusive, foi este tipo de descobertas que permitiu o desenvolvimento da neurociência para a atual psiconeuroimunologia - que percebe o corpomente como um todo integrado.

             Portanto, todas as informações sensoriais que chegam ao nosso corpo são transmitidas não só através do Sistema Nervoso Cérebro-espinhal, mas também e principalmente através deste “2o. Sistema Nervoso”. Estes processos se dão inicialmente no nível inconsciente e é no nível celular que as informações serão filtradas, permanecendo inconscientes ou acendendo à consciência (9). Vemos assim que a memória é também armazenada em uma rede psicossomática que se estende por todo o corpo, ou seja, as mudanças bioquímicas forjadas à nível dos receptores são a base molecular da memória (10).

3. M. Beatriz Breves Ramos, psicanalista e física, autora de Macromicro - A Ciência do Sentir (11)

Partindo de  uma abordagem transdisciplinar, Ramos atravessa a física moderna, a biologia, a psicanálise e a arte  para construir uma nova teoria, na qual concebe o ser humano como “um complexo vibratório macromicro”, que se manifesta, para a percepção humana, como um ser biológico (material)  em nível macrocósmico (que se refere aos aspectos da natureza que nossos sentidos alcançam) e como um ser psicológico (energético) em nível microcósmico (que se refere aos aspectos da natureza que nossos sentidos não alcançam). Mas esta fronteira entre o macrocósmico e o microcósmico, entre o visível e o invisível, entre matéria e energia, na realidade não existe - ela apenas se faz presente em função das limitações da percepção humana, ou seja, em função da forma como a evolução do universo nos “construiu”; se tivéssemos evoluído de uma outra forma, que nos possibilitasse perceber o nível microcósmico, perceberíamos a nós mesmos como um complexo energético - pois sabemos hoje que nossas células são constituídas de átomos que possuem em seu interior enorme potencial de energia. Sendo então o ser humano um complexo vibratório macromicro, as relações humanas processam-se sempre através de pulsos vibratórios, tanto a nível perceptível (onde por ex., a voz é uma onda mecânica emitida) quanto a nível inconsciente; esta relação vibratória entre os seres humanos é, segundo a autora,  regida pelo “Princípio da Interação”, de acordo com o qual é impossível sequer observar outro ser humano sem interferir nele e sem ser interferido por ele.  Ë este Princípio que rege uma nova concepção de transferência, que inclui a contratransferência e na qual ambas não são apenas fenômenos referentes à repetição, mas também novos fenômenos que se produzem no momento presente da relação analítica, segundo a interação que está ocorrendo entre cliente e analista,  por sua vez  relacionada ao que está ocorrendo no mundo interno e externo de ambos e no ambiente que os cerca. Como vemos, trata-se de uma concepção ampliada de transferência - e a autora propõe então o “sentir” como o instrumento adequado para captar a totalidade do que se passa na transferência a cada momento: o sentir engloba tanto as sensações  (manifestação do sentir a nível macrocósmico) quanto os sentimentos (manifestação do sentir a nível microcósmico) e é a vivência vibratória que podemos experimentar do complexo vibratório que somos nós mesmos e os outros. O sentir é o 1o. momento do trabalho analítico - só em um 2o. momento podemos tentar simbolizar em palavras o que foi captado através do sentir, criando uma interpretação.

Como podemos notar, são muitos os pontos em comum entre estes autores (as palavras sublinhadas visam colocar em relevo estes pontos). Todos falam de uma linguagem, de uma forma de comunicação não simbólica, de uma inteligência não racional, aonde se apagam as fronteiras entre o corpo e a mente, entre o somático e o psíquico. Vejamos então qual a possível relação destas teorias com a psicanálise, e que contribuição elas podem nos trazer.

IV - Relações possíveis entre Psicanálise e Neurociência

             O campo que tem sido prioritariamente desenvolvido pela psicanálise até hoje é  o campo do pulsional, sobretudo  das pulsões sexuais -  do inconsciente recalcado, dinâmico, das fantasias inconscientes, das formações do inconsciente. Campo do sentido, do representado, manifesto em associações livres passíveis de interpretação. Campo da palavra. Com o conceito de pulsão de morte, no entanto, Freud introduz uma nova dimensão na teoria das pulsões - a de uma pulsão silenciosa, que não se faz representar no psíquico. Se ela não está representada no psíquico, aonde, então, ela está?

Penso que é o paradigma da separação corpo x mente que nos leva a este tipo de impasse, sobre o que está dentro ou fora do psíquico - fazendo-nos deslizar para colocações perigosamente localizacionistas ( por ex., aonde está o que está fora do psíquico? No corpo?). De acordo com os novos paradigmas anteriormente expostos, que eliminam  esta separação, a distinção que passa a importar para nós, não é mais entre o biológico e o psíquico, mas entre o que já teve ou não representação no Sistema Préconsciente-Consciente, ou seja,  entre o inconsciente recalcado, objeto de nossas investigações clínicas, e aquilo que sempre foi inconsciente - experiências que jamais tiveram representação no Sistema Préconsciente- Consciente.

Atualmente, alguns psicanalistas (12) vêm voltando sua atenção para uma dimensão clínica carente de mais pesquisa e maior desenvolvimento - uma dimensão também presente em Freud, da ordem do Primitivo e do Traumático e das defesas radicais a eles relacionadas. Se olhamos com cuidado para esta clínica, percebemos existir aí algo também silencioso, que nunca esteve no campo do sentido, embora busque aí chegar. Esta clínica nos aponta para um  campo de pesquisa já explorado por autores como Ferenczi, Fairbain, Winnicott e outros, que enfocaram predominantemente o campo das experiências primitivas na relação com o outro, experiências da ordem da sobrevivência e da necessidade e portanto anteriores ao pulsional representável - que na verdade proporcionam uma continência ao pulsional, possibilitando assim  que ele tenha acesso à representação e passe a fazer sentido ; em outras palavras, estamos falando de experiências que proporcionam condições ao exercício do simbólico. As falhas neste campo de experiências,  dependendo de sua gravidade, geram falhas estruturais e/ou estados dissociados que, ao surgirem na clínica, demandam novas formas de manejo, diversas daquelas apropriadas para lidar com o inconsciente recalcado em estruturas já estabelecidas. Como lidar com este silencioso , que está fora do campo do sentido e portanto não é verbalizável?

“A lembrança permanece imobilizada no corpo e é somente aí que ela pode ser acordada” (13). Sándor Ferenczi, clínico sagaz de grande sensibilidade e coragem, ao lidar com seus casos difíceis, deu-se conta de que, neles, não bastava limitar-se ao corpo representado - criando, em função disto, sua técnica ativa, que inclui o outro corpo - o somático, o biológico. Wilhelm Reich postula a existência de couraças musculares que guardariam experiências traumáticas congeladas, fundamentando nesta hipótese sua caracteriologia, que inclui o corpo somático de forma ainda mais radical, tanto que a partir de seus postulados teóricos e técnicos, Alexander Lowen e John Pierrakos criaram a Bioenergética, da qual derivam-se algumas Terapias Corporais contemporâneas.

Portanto, tanto Ferenczi quanto Reich, ao lidarem com seus casos difíceis, propuseram a inclusão do outro corpo – o biológico – no processo psicanalítico. Na época, faltava-lhes dados científicos que fornecessem fundamentação teórica para tal proposta. Foram então atacados, perseguidos e excluídos. Penso, no entanto, que foram homens à frente do seu tempo – pois tanto sua produção teórica quanto sua prática clínica apontam na direção dos novos paradigmas aqui expostos. As novas descobertas e os novos conceitos deles derivados, expostos nas três teorias acima referidas – sobretudo o conceito de corpomente como uma rede psicossomática de informações – tornam, a meu ver, mais compreensíveis as postulações de Ferenczi sobre lembranças imobilizadas no corpo,  e de Reich sobre  couraças musculares que guardariam  experiências traumáticas congeladas. Pois, de acordo com estas descobertas e conceitos, as informações que atingem nosso corpo provocam alterações celulares que podem tornar-se conscientes ou permanecer inconscientes, guardadas a nível celular. E tornam também mais compreensíveis os efeitos do trabalho corporal, uma vez que, através deste trabalho, novas informações sensoriais atingem as células, podendo assim criar condições facilitadoras para o acesso à consciência.

  Penso então que a inclusão do trabalho corporal pode ser uma das formas de lidar com a dimensão  clínica anteriormente apontada - da ordem do primitivo e do traumático e também do silencioso, sem representação, fora do campo do sentido - que demanda novas formas de manejo, pois, com muita evidência, as formas que utilizamos para lidar com o inconsciente recalcado não lhe são apropriadas. É fato sabido por quem já experimentou ou presenciou sessões de trabalho corporal, que o mesmo pode fazer emergir, através de imagens, conteúdos inconscientes traumáticos, que permaneciam inconscientes depois de anos de análise, sem nunca terem se manifestado. O trabalho corporal é portanto uma forma de fazer falar o silencioso impresso no corpomente, fazendo-o ascender à consciência e dando-lhe assim a possibilidade de acesso ao simbólico.

Creio  que chegou a hora de rompermos o tabu do toque e de considerarmos a possibilidade de incluir o corpo, com seus infinitos mistérios a serem simbolizados, quando o caso ou a situação transferencial-contratransferencial do momento apontar para esta necessidade e o analista tiver a disponibilidade e a formação adequada para tanto. Pois afinal, como mostra Ramos em sua nova concepção de transferência, querendo ou não, tocamos o corpomente do cliente com nossa simples presença. De qualquer forma, penso que devemos estar abertos às contribuições que a Neurociência e a Física Contemporânea podem nos trazer, deixando-nos tocar por elas. Trata-se de um fascinante campo de pesquisas, à margem do qual a psicanálise não deveria ficar.

 

Bibliografia

Corpo Afeto e Linguagem a questão do sentido hoje. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

 

FERENCZI, S. Notas e Fragmentos. In:__.Obras Completas - Psicanálise 4. S. Paulo: Martins Fontes, 1975.

 

FREUD, Sigmund. (1915). O Instinto e suas Vicissitudes. In:__. Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974    (ESB,v. XIV).                               

 

GLEISER, M. A Dança do Universo. São Paulo: Companhia das Letras,1997.

                                                                                                       

KUHN,T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.

 

NICOLESCU,B. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Trion, 1999.

 

OSCHMAN, J. Energy Medicine. Londres: Churchill Livingstone, 2000.

 

PERT, C. Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine. New York: Simon & Schuster. Touchstone book, 1999.

 

RAMOS, M. B. (1998). Macromicro a Ciência do Sentir. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

 

____________. Psicossomática Contemporânea: um novo paradigma.1999-2000. Apostilha Curso Especialização em Psicossomática Contemporânea. CEPAC-UGF-Unidade Downtown-Barra, Rio de Janeiro.

 

_____________________________________________________________

 

(1) FREUD, Sigmund (1915). Os Instintos e suas Vicissitudes. In:___. Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (ESB, v. XIV). P. 142.

(2) KUHN,T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.

(3) GLEISER, M. A dança do Universo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

(4) NICOLESCU, B. O manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Perspectiva, 2001.

(5) “Afirma-se que as recentes descobertas da física avançaram até a misteriosa fronteira entre o sujeito e o objeto. Essa fronteira não é uma fronteira nítida de fato. Somos levados a entender que nunca observamos um objeto sem que ele seja modificado ou tingido por nossa própria atividade de observá-lo...O mundo me é dado somente uma vez, não uma vez como existente e uma vez como percebido. Sujeito e objeto são apenas um....essa barreira na existe.” SHRÖDINGER, E. O que é a vida? São Paulo: Fund. Ed. Unesp, Cambridge, 1997

(6) RAMOS, M. B. Psicossomática Contemporânea: um novo paradigma. 1999-2000. Apostilha Curso Especialização em Psicossomática Contemporânea. CEPAC-UGF, Rio de Janeiro

(7) OSCHMAN, J. Energy Medicine - The Scientific Basis. Londres: Churchill Livingstone, 2000.

(8) PERT, C. Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine. New York: Touchstone, 1999.

(9) “Usando neuropeptídios como sinais, nosso corpomente recupera ou reprime emoções e comportamentos......A decisão acerca do que se torna um pensamento subindo para a consciência e o que permanece um padrão de pensamento não digerido e submerso nas profundezas do corpo é mediado pêlos receptores” . PERT, C. Molecules of Emotion - the science behind mindbody medicine. New York: Touchstone, 1999.

(10) “ Eu gosto de especular que a mente é o fluxo de informações que se move entre as células, órgãos e sistemas do corpo... A mente, então, é aquilo que mantém a rede como rede, freqüentemente atuando abaixo da nossa consciência, ligando e coordenando os sistemas todos e seus órgãos e células, em uma inteligente orquestração da sinfonia da vida............Tivemos então que considerar um sistema com inteligência difundida por ele todo, ao invés de uma operação de mão única, obedecendo estritamente às leis de causa e efeito, como antigamente nós pensávamos, quando acreditávamos que o cérebro era o governador de tudo. Assim, se o fluxo das nossas moléculas não é dirigido pelo cérebro, e o cérebro é apenas mais um ponto nodal na rede, então temos que perguntar - de onde vem a inteligência, a informação que dirige nosso corpomente”. Idem

(11) RAMOS, M.B. macromicro - A Ciência do Sentir. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

(12) Ver os artigos de Luis Claudio Figueiredo e de Otávio Souza em Corpo, Afeto e Linguagem, a questão do sentido hoje.Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

(13) FERENCZI, S. Notas e fragmentos., In:___. Obras Completas - Psicanálise 4. S. Paulo: Martins Fontes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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